Por infelicidade, nossa cultura tem enraizada em si um ranço antigo e equivocado de masculinidade. Por “antigo” me refiro desde a nossa forçada colonização e imposição cultural até ao descompasso brasileiro ante aos demais países e seus revolucionismos democráticos no âmbito social-religioso, como o Norte da América, por exemplo, que recebeu em si, devido à influência legitimamente protestante, alteração e redenção nos aspectos varonis do homem integral, também afetando e reformando, no sentido de redirecionar, a visão sobre a mulher (ainda que, posteriormente, por terem se tornado tão iguais, diabolicamente tenha caído no feminismo). Fora os termos técnicos e carregados acima, a simplicidade da introdução visa explicar o seguinte: o Brasil e os brasileiros ficaram para trás por muito tempo (senão até hoje) no que se diz respeito aos genuínos traços masculinos e femininos, seja emocional, intelectual ou religiosamente.

Nossa cultura de coronelismo reflete ainda, impositiva e exclusivamente, ao gênero masculino uma imagem de “machão”, um ser tal sem sentimentos ou, no mais, com sentimentos distorcidos, sempre traçados junto de raiva, orgulho e impaciência. Fora isso, e junto disso, a visão sobre o gênero feminino também acabou sendo afetada: a mulher é sempre vista como aquele ser mais frágil, não no sentido bíblico de “frágil” como em 1Pedro 3, mas no sentido de incapaz, de fraqueza e de inferioridade. Logo, as características emocionais de choro, lamentação e humilhação sempre foram, e muito ainda são, aplicadas a elas, exclusivamente.

O clímax do ponto que desejo abordar aqui é que a sensibilidade masculina, especialmente em nosso âmbito, não existe; e quando existe, é desprezada, ridicularizada e distorcida. Isso está em total contradição ao equilíbrio que as Escrituras trazem sobre a personalidade do homem como criação divina. Sua sensibilidade não afeta sua varonilidade; pelo contrário, ela é a grande causa e o grande “fator x” que faz sua manutenção.

Dentro disso tudo, quando queremos dizer que ‘Homens também choram na Adoração’ não estamos afirmando que todo homem derrame lágrimas num momento de louvor a Deus, e nem que isso seja regra, mesmo naqueles mais sensíveis. Estamos buscando quebrar esse rótulo, que nada tem da Escritura, de que o homem varonil é um homem sem coração, ou então com um coração duro. Vemos ao longo da revelação divina exemplos de adoração masculina onde homens se derramavam diante do Senhor, como fica claro na leitura dos Salmos (a não ser que cogitemos que orações e canções tão belas tenham sido escritas por homens desassociados de sentimento; por que não poderiam estar derramando lágrimas enquanto escreviam inspirados pelo Senhor?). Uma ilustração clara disto talvez seja aquele costume antigo de indignação e quebrantamento onde os homens rasgavam, literalmente, suas vestes. O homem neste ato derramava sua varonilidade em arrependimento diante do Senhor, gastando sua força e sua honra por meio de uma imagem. Notamos, porém, que mesmo em casos como estes, quando escapava do povo a noção do coração acima da condição externa, o Senhor os lembrava do verdadeiro significado daquilo. Em outras palavras, homem mesmo não seria o que rasgasse fortemente suas vestes (e há que se lembrar que eles não usavam simples lençóis, mas túnicas pesadas e grossas), mas aqueles que rasgassem os seus corações. O ponto da Escritura aqui não seria de impor aos homens e ao povo uma ação forçada de choro e lamento diante dEle, mas sim afirmar que o verdadeiro fiel era aquele que já tinha em si um coração rasgado, quebrantado, ou ‘sensível’ ao coração de Deus.

Além disso, o maior modelo que temos, tanto de adoração quanto de hombridade perfeita, é o próprio Cristo, e não são raras as vezes que podemos ler no relato bíblico e vislumbrar o próprio coração do Senhor, seja nas retiradas em oração, seja nas exortações severas associadas a um sentimento compassivo, seja nos clamores a Deus pelo povo e pelo cumprimento da Sua obra.

Não posso finalizar esta ideia sem também alertar os jovens de hoje em relação a um porém: não confundam adoração sensível e quebrantada com choros e lágrimas por ocasião de uma “música de louvor” totalmente antropocêntrica e com artefatos psicológicos, concebidas justamente para provocar e aguçar no povo um sentimentalismo e um emocionalismo desconfigurado da adoração bíblica. Você pode chorar e se extasiar num suposto louvor a Deus, mas isto não é evidência singular e conclusiva de que sua adoração é verdadeira e bíblica, senão apenas de sua sinceridade no erro. Outra exortação talvez deva ser dada ao nosso meio reformado contemporâneo, que, em sua maioria, tem aversão de um louvor mais intenso e entregue ao Senhor em comunidade, por conta dos excessos de alguns irmãos pentecostais. O erro deles não justificará um erro nosso. Não podemos nos tornar frios e calculistas na adoração com aversão de uma verdade bíblica que foi levada ao extremo por outros.

Por fim, uma exortação a todos nós, especialmente homens, é que devemos dobrar toda nossa masculinidade aos pés do Senhor, e lutarmos para que Ele forme em nós uma hombridade integral e equilibrada, não apenas no momento de louvor e adoração, mas em toda nossa vida, que é um culto, de mente e coração, de força e sensibilidade, ao Senhor Jesus Cristo!

Por: Caique Büll. Revisão: Filipe Castelo Branco. Copyright © Cante as Escrituras 2015. Original: Homens também choram na adoração.

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