A música de hoje, para minha alegria, não é como tantas outras que acabamos lendo e ouvindo nas igrejas. Possui uma letra centrada na Escritura e cristocêntrica, exaltando a Jesus e toda a obra da bendita Trindade.

No entanto, como não poderia deixar de ser, creio que algumas coisas poderiam ser melhor explicadas ou eventualmente acrescentadas. Vamos à análise.

Eu olho para a cruz
E para a cruz eu vou
Do seu sofrer participar
Da sua obra vou cantar

As expressões são bíblicas e demonstram a importância de o crente olhar para a cruz de Cristo, a fim de tirar os olhos de si mesmo e os colocar sob a obra do Salvador. E embora a expressão “do seu sofrer participar”, possa soar um pouco estranha num primeiro momento, uma vez que Cristo pagou tudo pelos Seus eleitos, possivelmente é uma referência às palavras de Cristo, sobre cada um tomar sobre si a cruz e o seguir (Mt 16.24).

Notamos, também, que na expressão “da sua obra vou cantar”, resplandece algo que vemos por toda a Bíblia, a importância de louvar as maravilhas que o Senhor tem feito, conforme registrou o salmista: “Cantai-lhe, cantai-lhe salmos; falai de todas as suas maravilhas” (Sl 105.2).

O meu salvador
Na cruz mostrou
O amor do pai
O justo Deus

Esta estrofe é muito boa. A Bíblia ensina, de fato, que com a exclamação de Cristo – “Está consumado” (Jo 19.30) -, a obra de obediência e morte estavam completas, tendo os eleitos, ali, recebido o perdão do Senhor, o qual foi alvo da ira de Deus em nosso lugar. A expressão “está consumado” ou “está pago”, advém da palavra grega tetelestai, que segundo alguns, podia ter seu uso variado na cultura da época, mas que em todo caso, demonstrava que algo estava definitivamente terminado, pago e cumprido – nada mais restava.

Lembremos, todavia, que o “amor do pai” não foi somente direcionado a Cristo, mas também é a causa de sermos salvos: “Por isto o Pai me ama, porque dou a minha vida para tornar a tomá-la” (Jo 10.17). Paulo nos diz Deus “nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor” (Ef 1.4) e tudo isso, já na eternidade, “Segundo o eterno propósito que fez em Cristo Jesus nosso Senhor” (Ef 3.11). Portanto, o amor do pai não foi somente a Cristo, de maneira isolada, mas em Cristo e com vista a nós pecadores salvos.

Sobre o “justo Deus”, também importa recordar as palavras de Cristo: “Como o Pai me amou, também eu vos amei a vós; permanecei no meu amor” (Jo 15.9). O Pai amou o Filho e por isso “ao Senhor agradou moê-lo, fazendo-o enfermar” (Is 53.10). O Pai foi justo ao punir Jesus, porque o pecado precisava ser definitivamente apagado por um cordeiro santo e puro, o que animais não podiam fazer (Hb 10.4) e muito menos qualquer homem podia oferecer.

Pela cruz me chamou
Gentilmente me atraiu
E eu, sem palavras, me aproxímo
Quebrantado por seu amor

Esta estrofe é igualmente bíblica, mas faço uma consideração que julgo importante: não foi, apenas, a obra da cruz que nos atraiu. Em verdade, a Bíblia nos relata que o povo da época pouco se importou com Cristo e temos que recuar em nossa mente, caso pensemos que “se estivéssemos lá, teríamos seguido a Cristo”. Nós o seguiríamos se Ele tivesse nos escolhido, do contrário estaríamos escarnecendo de Sua morte.

A Bíblia diz que “ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e moído por causa das nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados” (Is 53.5). Isto significa, então, que não foi somente pela cruz que ele nos chamou, e sim porque durante toda a Sua vida, cumpriu toda a Lei de Deus em lugar dos Seus escolhidos. A obra da cruz é uma parte da obra maior do que foi toda a sua vida.

Imerecida vida, de graça recebi
Por sua cruz da morte me livrou
Trouxe-me a vida, eu estava condenado
Mas agora pela cruz eu fui reconciliado

Perfeito. A vida em Cristo é um favor totalmente imerecido. O apóstolo Paulo expressa esta verdade da reconciliação: “Porque se nós, sendo inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho, muito mais, tendo sido já reconciliados, seremos salvos pela sua vida” (Rm 5.10).

Conquanto perfeita, creio que a estrofe poderia ser aprimorada, deixando claro que antes da reconciliação, Deus estava irado conosco (Sl 7) e pronto para nos ceifar a vida e nos colocar à condenação eterna, por conta de nossos pecados. Uma ênfase nesta importante doutrina da ira de Deus contra os pecadores, assim penso, melhoraria a letra.

Impressionante é o seu amor
Me redimiu e me mostrou
O quanto é fiel
Quebrantado por seu amor

Por fim, a letra expõe o impressionante amor do Senhor. Isto me fez lembrar das palavras do salmista: “Muitas são, Senhor meu Deus, as maravilhas que tens operado para conosco, e os teus pensamentos não se podem contar diante de ti; se eu os quisera anunciar, e deles falar, são mais do que se podem contar” (Sl 40.5).

E vale ressaltar que a fidelidade do Senhor é pela Sua Palavra (e não pelo que fazemos) e por todos aqueles que o Pai enviou a Cristo (Jo 10), estando cada um perfeitamente seguro em Cristo, porque “eu lhes dou a vida eterna, e elas jamais perecerão; ninguém as poderá arrancar da minha mão” (Jo 10.28).

Concluo a classificando como “bíblica e apropriada para o culto público”.

Por: Filipe Machado. Revisão: Filipe Castelo Branco. Copyright © Cante as Escrituras 2015. Original: Quebrantado – Vineyard (Análise)

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