Todo final de ano é a mesma coisa: luzes, shoppings cheios, famílias decidindo onde será a ceia de Natal, casas decoradas, presentes. Na Igreja, passamos por algo semelhante: ordens de culto que nos remetam à data, seleção de músicas especiais, ensaio de corais, cantata de natal. Sem entrar no mérito do sentido materialista e consumista da data, e deixando de lado a questão de celebrarmos uma “festa pagã” que sempre surge, o Natal movimenta diversos tipos de sentimentos e compromissos tanto na vida familiar quanto na vida da Igreja.

Eu, particularmente, se precisasse escolher um feriado, ficaria com a Páscoa (que, da mesma forma, movimenta uma série de compromissos e sentimentos tanto nas famílias quanto na Igreja) – mas não vem a caso as minhas preferências. O que eu gostaria de ressaltar é que, seja qual for a celebração cristã em pauta, há sempre uma questão litúrgica em jogo. E, obviamente, dentro disso entram as músicas.

Por ter vindo de tradição Batista, nunca fui muito bem informado a respeito do calendário litúrgico que outras Igrejas históricas utilizam (que incluem a Quaresma, o Pentecostes, a Semana Santa, dentre outros), então o que nos restava eram a Páscoa e o Natal. E por boa parte da minha adolescência e juventude eu passei ano após ano ouvindo as mesmas mensagens e cantando as mesmas músicas. Confesso que meu interesse por Teologia na época era bem pequeno, mas lembro-me bem do sentimento de “mesmice”. Infelizmente, muitas Igrejas celebram datas tão importantes assim: sem entusiasmo, sem preparo correto, sem um sentimento de gratidão e compreensão a respeito daquilo que se está fazendo.

Neste momento, deixo também de lado a questão do preparo do pregador para estas datas. Os textos se repetem ano após ano? Sim. As referências são as mesmas? Sim. Mas é por isso que devemos preparar as mensagens de maneira insossa, sem compromisso com o texto e com a congregação e, pior, sem glorificar de forma digna a Cristo? De maneira alguma. Mas isso merece um texto à parte, que não julgo ser capaz de escrever. Por isso, vamos aos músicos.

Pensando que Batistas, Presbiterianos, Anglicanos, Luteranos, Metodistas, enfim, pensando que todas as denominações celebrem a Páscoa e o Natal, imagino que quase toda igreja conhece o protocolo destas datas: agendar ensaios corais com dois meses de antecedência, preparar partituras, definir datas de apresentações, escolher as músicas que serão cantadas nas semanas antecedentes à data e também na data, fazer a escala de músicos… isso tudo é necessário, mas se for realizado de forma mecânica, nos rouba o principal motivador de todo o esforço: a celebração de Cristo, seu nascimento e sua morte e ressurreição.

Como disse anteriormente, eu prefiro a Páscoa ao Natal. E por muitos anos, o mês de dezembro era um fardo para mim, como membro e como músico de igreja. Achava as músicas “chatas” e talvez “alegres demais”. Envolvia-me nas atividades muito mais por ser algo que, como família, em casa, todos participávamos, do que por estar convicto de que aquilo tudo era de fato necessário. Até que chegou um momento em que não nos envolvemos mais. Meus pais se mudaram para outra cidade, e eu morei durante algum tempo com a minha avó materna, então não frequentávamos mais a mesma igreja. E desde então – e lá se vão mais de 10 anos – nunca mais tive envolvimento com celebrações de datas especiais.

Isso não quer dizer que a Páscoa e o Natal, na minha família, tenham perdido a importância. Minha mãe ainda decora – e muito bem – a sua casa para as datas. Sempre há celebração, sempre há a lembrança daquilo que estamos comemorando, sempre há cânticos. E foi em um desses momentos em família, há alguns anos, que tudo começou a fazer sentido novamente para mim. Sempre sou chamado como o músico “oficial” dos cultos familiares, e geralmente monto a ordem de culto com minha mãe, ou eu mesmo faço a ordem. E aí, preparando as músicas e leituras para um contexto menor, mais familiar, meu amor pelas canções de Páscoa e Natal voltou.

Um dos pontos essenciais para que qualquer coisa na igreja seja feita é este: entendimento. Na verdade, em qualquer momento de nossa vida, deveríamos fazer as coisas com entendimento. Quando tratamos a música na igreja como uma linha de produção, onde as coisas simplesmente têm que acontecer, desligamos nossa mente e atuamos no automático. Eu vivi assim por muitos, muito anos. Já não prestava atenção às letras, preocupado com a harmonia, o arranjo, o andamento, a coesão da banda. Tudo isso importa, mas estamos tratando aqui de música que é digna de um Rei, e creio que o que a torna digna é muito mais relacionado às palavras e conteúdo do que é cantado do que à forma na qual é tocada.

Veja bem, é fácil ler as últimas linhas acima e pensar que estou falando de mediocridade. Longe disso. Aquilo que é do aspecto musical é preciso ser levado em conta. Ensaios devem existir, arranjos devem ser feitos, instrumentos devem ser tocados com habilidade. Mas se as letras que são acompanhadas pela música forem declamadas com uma bela entonação, mas com um péssimo entendimento, ela não vai passar de apenas mais uma música.

No relato bíblico do nascimento de Cristo, Lucas nos conta que após o anjo anunciar que Cristo era nascido em Belém, logo em seguida uma multidão de anjos juntou-se ao primeiro, louvando a Deus e dizendo “Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na terra entre os homens a quem Ele ama” (Lucas 2.14, Almeida Século XXI). De tão curta canção, podemos tirar tantos benefícios! Imagino como os pastores, que presenciaram o gigantesco coro angelical, ficaram assombrados não apenas com a música e qualidade daquilo que ouviram, como também pelas palavras. Da mesma forma, deveríamos ficar atentos para que a congregação que ouve as músicas que tocamos tenham pleno entendimento de que, tanto no nascimento quando na morte e ressurreição de Jesus, Deus é digno de toda honra. Portanto, aquilo que cantamos deve ter a glória de Deus em vista.

A questão é: como chegaremos a este entendimento? Como seremos capazes de apreciar as canções especiais, que são entoadas em datas específicas? Não há outra resposta, senão através de uma profunda compreensão daquilo que estas datas representam.

A primeira e segunda perguntas do Catecismo de Heidelberg dizem respeito ao nosso conforto na vida e na morte, e àquilo que precisamos saber para viver na alegria deste conforto. Pois bem: se nosso conforto está no fato de que pertencemos a Cristo e que não somos de nós mesmos; se sabemos quão grandes nosso pecado e miséria eram e como fomos libertos de tamanho pecado e miséria, o que nos leva à gratidão por tamanha libertação; se tudo isso é possível apenas por meio de Jesus Cristo, então aí está o motivo pelo qual o Natal e a Páscoa precisam fazer tanto sentido para nós.

E certo que pastores, diáconos, presbíteros e anciãos devem ter um estudo mais aprofundado da Bíblia. Mas todo cristão deve ter um estudo contínuo, uma vida de devoção constante que o leve a ter uma compreensão das razões de sua esperança. E com músicos a história não é diferente. Músicos que tangem seus instrumentos com alegria, plenamente capazes em suas habilidades e plenamente conscientes dos motivos que os levam a cantar as músicas que cantam, prestam um tremendo serviço ao Reino. Ajudam a congregação a enxergar as verdades da bíblia através dos hinos e cânticos, e isso magnifica o Nome de Cristo na terra.

Portanto irmãos, não façamos das datas especiais um fardo. Não tornemos aquelas canções sazonais algo enfadonhos para nós, enquanto músicos, e para a Igreja. Preparemo-nos para que quando as entoarmos, estejamos cantando a nossa própria esperança. Que o nosso canto seja vivo e renovado da certeza de que Cristo é digno de todo movimento que, como Igreja, fazemos nesta época. Busquemos louva-lo com inteireza de coração e mente. A Ele toda glória.

Por: Eduardo Mano. Revisão: Filipe Castelo Branco. © 2015 Cante as Escrituras. Website: CanteAsEscrituras.com.br. Todos os direitos reservados. Original: Festas cristãs e suas músicas: motivos para não deixá-las de lado.