A espiritualidade do Segundo Grande Despertamento

A ideia de “entrega” é proeminente na espiritualidade evangélica. Especialmente após o Segundo Grande Despertamento, tornou-se a metáfora principal para resumir a experiência da conversão. Os pregadores costumavam mostrar a urgência que era para os não-convertidos de “abandonarem tudo e se entregarem a Jesus”. Uma das canções que continua tendo radiodifusão como um “hino antigo” hoje em dia, “Tudo Entregarei”, emergiu do clima espiritual pesadamente influenciado pela metáfora principal da entrega:

Tudo, ó Cristo, a Ti entrego

Tudo, sim, por Ti darei

Resoluto, mas submisso

Sempre a Ti eu seguirei

Tudo entregarei

Tudo entregarei

Sim, por Ti Jesus bendito

Tudo deixarei[1]

Escrito em 1896 (tempo suficiente após o Segundo Grande Despertamento para que sua espiritualidade tenha sido codificada e promulgada), o compositor do hino Judson W. Van DeVenter reconta que essa canção surgiu de um momento crucial em sua vida quando ele desistiu da ideia de exercer arte pelo propósito de se tornar um evangelista. É interessante notar que essa canção, apesar de frequentemente usada para encorajar não-cristãos a receber Cristo durante os apelos nas igrejas (leia o que penso sobre isso aqui – ainda em inglês, em processo de tradução), não emergiu de um contexto de conversão.

Desde o Segundo Grande Despertamento, os evangélicos têm preservado amplamente o lema da “entrega” como uma metáfora principal tanto para a conversão quanto para a vida em andamento. Nós podemos ouvi-la na música recente da Hillsong “Poder Pra Salvar”[2], no segundo verso:

A minha vida entrego

Pra seguir Teus passos

A Ti me rendo[3]

A música “Eu Entrego”[4], do grupo Jesus Culture, diz no seu refrão:

Tudo a Ti, eu entrego

Todas as coisas, cada parte de mim

Tudo a Ti, eu entrego

Todos os meus sonhos, tudo de mim

Eu entrego[5]

Na verdade, apenas na minha própria coleção digital do iTunes a palavra “entrega” aparece nos títulos de músicas de adoração de onze artistas diferentes. Nessa postagem, eu quero externar uma preocupação e encorajar os líderes de adoração a pensar mais criticamente sobre a linguagem da entrega que empregamos e na maneira como a empregamos.

O duplo sentido capcioso da “entrega”

“Entrega” é uma daquelas palavras interessantes na língua inglesa que tem um sentido duplo, e contidos nesses dois significados estão dois entendimentos muito diferentes de como nosso relacionamento com Deus funciona. Se você me permite dizer de forma sucinta, uma das leituras termina em morte e a outra em vida. Eu gostaria de descrevê-las em termos do que chamarei de “entrega ativa” versus “entrega passiva”.

A “entrega ativa” é aquela à qual o Segundo Grande Despertar mais frequentemente se referia. É o sentido que muitas músicas de adoração de fato querem passar ao dizerem “eu entrego”. É a escolha voluntária de relegar o controle, os direitos ou propriedades. Significa dizer: “Deus, eu tenho muitas coisas [ideias, planos, bens, objetivos] e eu as dou a Ti para que possas tomá-las e fazer com elas o que Tu quiseres”. E essa ideia de entrega é um coisa linda. Na verdade, é parte da esfera de pensamento daquilo que os liturgistas chamam de “consagração”, que é devotar a si mesmo para que Deus o use (“Toma, ó Deus, em Tua mão, como está coração”[6]). A entrega ativa, como uma resposta ao evangelho, é uma coisa linda, mas precisamos dizer claramente que naquele momento o foco está em mim e naquilo que eu faço para Deus.

A “entrega passiva” é no que nós pensamos quando se trata de guerras e batalhas. É o momento da “desistência” quando você está contra a parede. É o lugar onde suas fugas para longe de Deus já o localizaram e o encurralaram. Chega de fugir. Chega de se esconder. Chega de tentar ludibriar. A máscara caiu. É xeque-mate. Você perdeu.

É claro que as linhas entre a entrega ativa e passiva são mais tênues do que a maneira como eu as estou descrevendo faz parecer. Quando você está encurralado, levantando sua bandeira branca, você está de certa maneira ativamente desistindo do controle sobre a situação em que você se encontra. E muitas vezes, acompanhando o momento passivo da “desistência”, está um sentimento ativo do tipo “ok, agora estou me juntando ao seu time”. Mas permaneça comigo e ouça minha preocupação.

A linguagem da entrega e o Evangelho

Muito da nossa linguagem de entrega pode minar a Palavra poderosa do evangelho para nós se não formos sábios em como empregá-la no contexto da adoração. De forma sucinta, se ideias de entrega ativa não vêm após o evangelho, mas o precedem, elas neutralizam o poder cru da realidade de que somos (continuamente) salvos pela graça, não pelas obras (Efésios 2:8-9). Muito frequentemente, a linguagem da “entrega” ativa é usada em músicas de adoração e em contextos de adoração de tal forma que nós na verdade acabamos louvando a nós mesmos mais do que a Jesus. Nós mais uma vez “nos curvamos para dentro” (a ideia de Agostinho e Lutero de incurvatus in se) e começamos aquela contemplação naval autocentrada: “Olhe para mim. Olhe o que estou fazendo para Deus! Olhe o que estou entregando! Viva eu!”. Eu e muitos outros temos chamado esse tipo de espiritualidade de “triunfalismo”. Pense nas músicas de adoração que cantam “Estou vivendo para Ti”, “Estou me desfazendo de tudo por Ti”, “Estou deixando tudo para trás”. É uma abordagem do tipo “sim eu posso” em relação a mim e a Jesus.

Nós devemos entender que como seres humanos, cada um de nós, devido ao pecado original, tem um curto-circuito no cabeamento original de Deus que tenta contornar a verdade sobre nossa depravação e pula diretamente para nossa habilidade. Em outras palavras, você e eu somos dependentes de nossa própria auto justificação. Cada linguagem de “entrega” aparentemente inocente pode se tornar um momento no qual nós inconscientemente dizemos: “Eu posso fazer isso; é a minha vez agora, Deus. Sua graça me trouxe em segurança até aqui, mas eu posso me guiar até chegar em casa”.

As coisas, porém, ficam ainda mais capciosas porque a “entrega” passiva é na verdade algo que devemos experimentar antes de ouvirmos o evangelho da graça de Deus em Jesus. Nós precisamos daquela palavra graciosa e devastadora que diz “Você não pode fazer nada. Você não tem onde se esconder. Suas tentativas de encobrir sua nudez são inúteis” (“Todo indigno e imundo sou. Eis, sem Ti, perdido estou!/No Teu sangue, ó Salvador, lava um pobre pecador”[7]).

A ideia da entrega passiva é muito bíblica. O final do Salmo 5, por exemplo, canta: “Pois tu, Senhor, abençoas o justo e, como escudo, o cercas da tua benevolência”.Eu usei a Almeida Revista e Atualizada de propósito devido a como ela traduz a palavra hebraica atar–“cercar”. É a mesma palavra usada em 1 Samuel 23:26 quando uma força hostil estava fechando o cerco em Davi para matá-lo. Deus consegue tirar de você sua entrega porque Seus tanques e armas estão todas apontadas para a sua cabeça com a declaração: “Você é culpado, e você deve morrer”. E essa é precisamente a palavra que precisamos antes de podermos ouvir a declaração gloriosa: “MAS… Jesus pagou por tudo isso”. A entrega passiva força nossos olhos para fora de nós e para cima ao invés de para baixo e para dentro de nós.

Minha preocupação, entretanto, é de que até mesmo nossas tentativas em articular e expressar a entrega passiva de forma apropriada irão facilmente ruir em ideias prejudiciais de entrega ativa por causa de como estamos encabeados. Nós somos absolutamente dependentes da entrega ativa porque nos faz sentir bem com relação a nós mesmos. Ela coloca parte do poder e do controle de nosso crescimento na vida cristã de volta aos nossos ombros. Isso nos dá a oportunidade de reivindicar como nossa propriedade alguns dos frutos que estivemos produzindo. Mas a ironia disso é que, fazendo assim, nós cortamos a nós mesmos da vida/água que de fato faz com que nosso fruto cresça – o evangelho de Jesus Cristo. Assim sendo, por causa dessa dependência, até mesmo nossas melhores tentativas de empregar e qualificar a linguagem da entrega passiva pode se perder na tradução e ser ouvida como entrega ativa.

Como devemos, então, nos entregar? Talvez não devamos

Diante disso, e diante do fato de que a maior parte das nossas músicas de adoração impulsionam as glórias da entrega ativa, o evangelicalismo provavelmente precisa ser gradativamente desvinculado da linguagem da entrega. Eu desencorajaria o uso abundante da metáfora em nossa adoração e encorajaria apenas o uso sábio e seletivo de tal expressão após declarações fortes e seguras do trabalho cumprido de Cristo. Pelo fato da palavra ser tão traiçoeira, e devido ao fato de sermos tão dependentes de nossa própria auto justificação, eu acredito que poderíamos também acabar enganando nossos corações acreditando que a linguagem passiva da entrega sejalinguagem ativa; sendo assim, eu seria muito cuidadoso ao usar a palavra e suas ideias antes de o evangelho ser ativamente proclamado e declarado. Ademais, uma busca da palavra inglesa “surrender” (entrega) na NVI mostra apenas 15 ocorrências em toda a Bíblia, nenhuma delas estão(a) nos Salmos ou (b) usadas num contexto de como o povo de Deus se relaciona com Ele. Isso não é insignificante.

Os únicos verdadeiros “entregadores”

A verdade é que você e eu somos “entregadores” horríveis. Nós não entregamos realmente nossas vidas a Deus com todo coração, com tanta convicção ou certeza quanto nós algumas vezes pensamos. Para piorar, quando nos encontramos num momento de consagração “genuína” e abdicação de nós mesmos, nós quase que imediatamente e instintivamente começamos a nos sentir bem com relação a nós mesmos e nos damos tapinhas nas costas. Nós somos doentes e enfermos. Nossa única esperança vem quando olhamos o Homem que realmente “entregou tudo” a Deus, por nós e por nossa salvação. Ele fez de si mesmo nada, tomando a forma de servo, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz (Filipenses 2).

Se sou honesto, eu não posso em sã consciência dizer “eu entrego tudo” a Jesus. O que posso dizer, cantar, até mesmo gritar é: “Jesus entregou tudo por mim”. Não a nós, não a nós, mas ao Teu nome daí glória.

[1] Veja o leitor, desde já, que a versão clássica do hino em português já utiliza dois verbos diferentes, a saber “entregar” e “deixar”, para o verbo “tosurrender”.

[2] Título original: “MightytoSave”.

[3] Utilizamos aqui a versão mais popularmente difundida no Brasil e gravada por Aline Barros. Vê-se um novo verbo utilizado para “tosurrender”: o verbo “render”. Numa tradução livre, os versos originais seriam: “Eu dou minha vida para seguir/tudo aquilo no qual acredito/Agora eu me rendo” (optei por preservar o uso do verbo “render” como na versão popularizada por Aline Barros).

[4] Título original: “I surrender”.

[5] Tradução livre, já que após algumas pesquisas não foi possível encontrar versão para essa canção em português.

[6] Versão em português, intitulada “Toma, ó Deus, meu coração” do hino “Takemylifeandlet it be” retirada do Hinário Adventista do Sétimo Dia.

[7] Versão em português, intitulada “Rocha eterna”, do hino “Rock of ages” retirada da Harpa Cristã.

Por: Matt Boswell. Copyright © 2014 The Gospel Coalition. Original: Abandoning Surrender Language in Worship Songs

Tradução: José Ruy Pimentel. Revisão: Filipe Castelo Branco. © Cante as Escrituras 2015. Original: Abandonando a Linguagem da “Entrega” nas Músicas de Adoração

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