Na maior parte da década da minha vida como cristão, eu considerava a adoração contemporânea – essa que leva bateria e guitarras, com músicas escritas nos últimos 20 ou 30 anos – como um sacrilégio: como uma desonra à santidade de Deus e à solenidade devida ao Seu nome. “Como é possível comparar uma música de hoje com a beleza de um hino antigo?”, eu pensava. E não era o único. De fato, as “lutas” entre a adoração contemporânea e a adoração tradicional – me referindo com isso a cantar só hinos, usualmente com poucos ou nenhum instrumento – estão causando grandes divisões em muitas igrejas hispânicas.

Com o tempo, o Senhor foi me guiando para meditar mais profundamente neste tema da adoração, para identificar ideias preconcebidas e preconceitos, e para observá-las à luz das Escrituras. Assim fui chegando à conclusão de que a adoração contemporânea tem muitas fortalezas que eu ignorava, e que minha defesa da adoração tradicional tinha grandes lacunas. Minha oração é que este artigo lhe sirva para pensar nestas coisas, e que possa chegar por você mesmo a uma conclusão conforme às Escrituras.

Triagem teológica

Há alguns anos, Albert Mohler escreveu um desses artigos que se convertem em clássicos. Assim traduzido, como “Um chamado à triagem teológica”, o Dr. Mohler toma o exemplo médico da “triagem”, que é a forma em que se decide que pacientes vão se tratar primeiro na hora de uma emergência. Ele faz um chamado para que exerçamos um discernimento similar ao tratar com verdades teológicas. Os assuntos de primeira importância são aqueles centrais e essenciais à fé cristã. Isto inclui doutrinas como a trindade, a deidade e humanidade de Jesus, a justificação pela fé, a autoridade das Escrituras. Estas são as verdades que devemos cantar. Também há doutrinas secundárias: são importantes, mas entre cristãos há muitas diferenças no entendimento das mesmas. Isso incluiria o entendimento do batismo e o modo de aplicá-lo, por exemplo.

Assim chegamos às doutrinas terciárias: e é nessa categoria que eu incluiria o tipo de música no serviço de adoração. Não é algo intranscendente, mas às vezes temos levantado paredes altas demais por algo que não é de primeira nem segunda importância. Por isso é importante que eu escreva este artigo. Porque não é de primeira importância é o tom que espero como base das discussões: podemos discordar e seguir unidos em torno da verdade.

4 argumentos

Muitas outras coisas poderiam ser ditas, mas aqui há quatro argumentos que me levam a concluir a importância e força da adoração contemporânea.

1) A adoração contemporânea contribui ao exercício de dons e talentos dos membros.

1 Coríntios 12 é um lembrete de que nem todos somos iguais, mas sim pertencemos ao mesmo corpo. É assim que nos diz que “há uma diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo. Há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo. E há uma diversidade de operações, mas é o mesmo Deus o que faz todas as coisas em todos. Mas a cada um se é dada a manifestação do Espírito para o bem comum” (1 Co. 12:4-5). No Novo Testamento não há uma lista exaustiva dos dons do Espírito, mas é evidente que, seja um dom espiritual ou um talento dado por Ele, Deus provê a homens e mulheres dentro da igreja certas capacidades musicais e talentos para dirigir a adoração, junto com um chamado para servir nesta área.

Que espaço provemos como igreja aos jovens que aprendem um instrumento e possuem um caráter piedoso? Onde vão exercitar o seu talento? Como glorificarão a Deus com o que lhe foi dado? Que tal com as irmãs que Deus dotou com uma formosa voz? Não estamos falando de que a igreja tem a obrigação de prover espaço para a plenitude pessoal. Mas era muito evidente no Antigo Testamento que o Senhor capacitava seus servos para que lhe sirvam através da música (1 Cr. 26:6-7; 2 Cr. 7:6). E é evidente na história da igreja que Ele levanta pessoas com dons particulares para a música. Os mesmos escritores de hinos de antes são um exemplo disso: homens como Lutero e Charles Wesley que proveram à igreja de teologia cantada.

Se Deus pões irmãos com talentos e dons em nossa igreja é para edificação do povo. Pode ser que, sem nenhuma proposição, a adoração tradicional dificulte o exercício dos dons individuais para o benefício do corpo.

2) A adoração contemporânea contribui para refletir a grandeza e formosura de Deus.

Na maioria das congregações que conheço que só cantam hinos, usualmente é usado algo como os “Hinos de glória e triunfo”, com uma música de fundo e um irmão que dirige. Em muitos, muitos casos, este irmão não tem um treinamento musical, e em ocasiões tampouco tem uma voz particularmente boa. Muitas vezes não se faz um exercício de equalização com os autofalantes, e a congregação tampouco é guiada nas entradas e saídas. Isto leva a um som não muito bom no domingo de manhã.

Há muitas, muitas exceções a isso. E usar música contemporânea tampouco é a solução. Mas tenho visto ao longo dos anos e pela América Latina que é mais comum que nas igrejas que só usam hinos não se faz um grande esforço para que haja beleza na música. Não me entenda mal: o instrumento mais bonito do domingo é a voz da congregação. Devemos pensar como este tempo sendo um tempo de adoração, não um concerto. Mas quando buscamos a excelência em nossos ensaios e em nossos músicos e em nossos vocalistas e em nosso encarregado do som, algo da glória e beleza e majestade de Deus se reflete de uma melhor maneira que quando uma só pessoa toma 15 minutos para escolher quatro hinos e alguém dá play no computador. Algo se comunica da solenidade e majestade do Deus que adoramos. Por algo Ele mesmo nos mandou cantar com júbilo, dar graças com instrumentos, cantar um cântico novo, e fazer bem, com arte (Salmos 33:1-3).

Embora não seja intrínseco na adoração tradicional, parece muito comum que aqueles que só usam hinos façam muito menos esforço para preparar o tempo de pregação. E isso, aos meus olhos, me parece como talentos enterrados (Mt. 25:25).

3) A adoração contemporânea contribui a uma cultura de igreja de criadores mais que de consumidores.

É evidente a dificuldade que é encontrar um bom conteúdo escrito originalmente em português para a igreja. A grande maioria dos hinos que cantamos são traduções (que muitas vezes perdem muito da força e da beleza). Os livros, da mesma forma. E ainda os artigos da Internet.

Por anos, as igrejas da Sã Doutrina não produzem músicas nem hinos, visto que só descansaram no que já fez a igreja outrora. Embora sempre seja bom ler o velho, e no cristianismo nunca queremos inventar algo novo, milhares e milhares de bons livros foram escritos nos últimos 200 anos da igreja. Mas nos últimos anos não estamos vendo músicas centradas no evangelho, que apresentam um Deus grande e soberano que salva pecadores para a Sua glória e nosso bem. Isso contribui para formar mais pensadores e escritores e autores e apreciadores que sejam primeiramente conhecedores das Escrituras e então possam capturar o que elas dizem em música.

Há mais de uma dúzia de referências a “novos cânticos” na Escritura, concluindo na formosa nova canção ao Cordeiro de Apocalipse 5:9. Mas, sem saber, entendo que a adoração tradicional prejudica o crescimento e desenvolvimento de líderes e escritores na igreja, visto que enfatiza o consumir o antigo em vez de criar para a glória de Deus.

4) A adoração contemporânea contribui para mostrar os princípios da língua materna da Escritura e da Reforma.

Me lembro de uma jovem quando leu pela primeira vez as letras de “Castelo forte é nosso Deus”, como que não entendia o motivo de Lutero estar tentando à Satanás quando diz: “Com força e com furor, nos prova o tentador”. Para quem não cresceu com esta linguagem, esta frase simplesmente não é bem compreendida. (A ideia é que o tentador nos prova dessa maneira, não um estímulo para que ele nos prove). Interessantemente, estes hinos que hoje soam tão antigos, em seu momento usavam a linguagem contemporânea.

Compare isso com a ênfase em traduzir a Bíblia à língua da época de Lutero e Valera e tantos outros. Uma das coisas que os reformadores mais enfatizaram foi o fato de que a Bíblia e os cultos deviam estar na linguagem do povo. Além do mais, compare isso com a forma como a Bíblia está escrita. Temos as palavras de Cristo e dos Apóstolos na linguagem das massas. A maior parte do Antigo Testamento também foi escrito em um idioma fácil de entender em seu momento. Lamentavelmente, nossas Bíblias estão cheias de “vós outros” e outras formas que no original são simples “tu” e “vocês”.

A Bíblia foi escrita em uma linguagem acessível ao leitor original. Os reformadores procuravam falar na linguagem dos seus tempos. No entanto, aqueles que são contrários a adoração contemporânea violam este princípio só em buscar cantar músicas escritas há centenas de anos, sem sequer atualizar frases obscuras. Isso me lembra da atitude sobre a qual adverte o pregador: “Não digas: ‘Por que os dias passados foram melhores que estes?’ Porque não provém da sabedoria esta pergunta”, Eclesiastes 7:10.

Conclusão

Este artigo não é uma negação dos bons hinos, os quais amo e desfruto cantar. Há muito mais que se pode e deve dizer. Seria bom escrever sobre os perigos da música de adoração contemporânea e as vantagens da adoração tradicional. Talvez falar do que caracteriza as boas músicas de adoração. Ou da idolatria funcional com que as pessoas – em ambos os lados, tradicional e contemporâneo – defendem suas preferências. Mas creio que até aqui é suficiente como uma introdução ao tema. Se você pensa em alguma outra razão pela preferência da adoração contemporânea, deixe seu comentário abaixo e contribua na discussão. Afinal, de uma maneira ou outra, que a glória seja para o nosso Deus, no nome de Jesus, pelo poder do Espírito, através do evangelho que nos salvou e do qual devemos cantar.

Por: Jairo Namnún. Copyright © 2015 Coalición por el Evangelio. Fonte: 4 argumentos a favor de la adoración contemporánea.

Original: 4 argumentos a favor da adoração contemporânea. © 2016 Cante as Escrituras. Website: CanteAsEscrituras.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Renan Bandeira. Revisão: Filipe Castelo Branco.

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