Uma das razões pelas quais estas análises existem, diz respeito à necessidade de se entender o que é uma música bíblica e se ela é ou não aplicável ao contexto do culto público. Muitas são bíblicas e dignas de ser entoadas na igreja, pois exaltam o Criador, falam da graça, misericórdia e levam o povo a engrandecer ao Senhor. Todavia, outras não são recomendadas ao canto congregacional, pois suas letras, embora não contenham heresias, não tratam de uma exaltação direta a Deus ou poderiam ser mais bem exploradas.

Hoje, então, estamos diante de um caso interessante. Uma letra que não contém uma heresia, mas poderia ter sido bem melhor formulada. Vamos à análise.

Preciso ser o oposto do que o mundo é
Bater de frente com os meus desejos
Resistir o mal até o fim
Uma hora ele fugirá de mim

O nome da música remete à ideia de se fazer um confronto do crente com o pecado, o mundo e tudo aquilo que nos impede de ir a Cristo. Tanto é verdade, que a primeira frase já deixa isso claro, o que é bíblico: “Abstende-vos de toda a aparência do mal” (1Ts 5.22). Também é verdade que precisamos enfrentar os desejos maus, “Porque a carne cobiça contra o Espírito, e o Espírito contra a carne; e estes opõem-se um ao outro, para que não façais o que quereis” (Gl 5.17). Igualmente que temos a promessa de que o mal fugirá de nós pelo poder do Senhor: “Sujeitai-vos, pois, a Deus, resisti ao diabo, e ele fugirá de vós” (Tg 4.7).

Notemos, sempre, que o inimigo somente se retirará das investidas em certa área (ao menos por um momento), se nos sujeitarmos a Deus – contrário, sem Deus, é impossível resistir ao diabo. Não é possível vencer qualquer batalha contra o pecado, se não depositarmos tudo diante do Senhor. Precisamos constantemente clamar: “É necessário que ele cresça e que eu diminua” (Jo 3.30).

Preciso ser preservador de bons costumes
Evitar as más conversações
Me policiar quando os meus impulsos
Ultrapassam o limite da emoção

Confesso que não entendi a primeira frase, pois o conceito de bons costumes é bastante relativo na sociedade e nem sempre eles estão em harmonia com a Escritura. Já com relação a evitar as conversações, precisamos com urgência nos lembrar disso (Salmo 1), bem como buscar refrear nossos impulsos.

Mas esta estrofe contém algo difícil de ser compreendido. Ela não comenta nada sobre como refrear os impulsos e coloca como limite, a emoção, o que acho bem perigoso. O profeta já escreveu: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?” (Jr 17.9). Se o limite para nossos desejos for a emoção, estamos seriamente encrencados, porque duvido que exista algo mais volátil do que ela. Nosso limite deve ser a Palavra de Deus, ampliando o versículo para este ponto: “Não julgueis segundo a aparência, mas julgai segundo a reta justiça” (Jo 7.24). Não as nossas emoções, e sim a Palavra de Deus.

Preciso guardar meu corpo
Lembrar que ele é um templo santo do Pai
Preciso ter atitude
Largar o meu assento e caminhar com Deus

A intenção da letra, como comentamos no início, é de fazer um confronto entre a passividade do crente e aquilo que ele deve ser diante de Deus. No entanto, a letra é bastante focada no homem e em sua vontade. Não que sejamos seres “sem vontade própria”, mas da forma como foi concebida, passa a impressão de que podemos fazer algumas coisas por nós mesmos, como se certas vitórias só “dependessem de nós”, levando muita gente à má teologia e interpretando errado a responsabilidade do homem, além de não exaltar a soberania de Deus. E muito embora nosso corpo seja templo de Deus (Rm 12.1; 1Co 6.19), o restante da estrofe destoa do pretendido no início, ficando confuso, sob a análise teológica, o propósito do artista.

Hoje é tempo de fortalecer a fé
Colidir com o mundo e ficar de pé
Mais que conhecer, preciso viver
A verdade revelada

Fomos chamados a viver a vontade de Deus, tal qual grandiosamente demonstrado de maneira cabal em Cristo chamando seus apóstolos e transformando radicalmente o propósito de suas vidas.

Entretanto, outra vez temos a ausência sobre onde Deus “entra” nessa letra. Tudo bem que Cristo é a verdade revelada, mas como eu fortaleço a minha fé? Como eu colido, isto é, vou contra o mundo e fico de pé? Como eu faço para viver tudo isso? Para uma letra ser de louvor e adoração, precisa levar o crente a exaltar ao Senhor pelo que Ele é na vida da igreja, em vez de dizer o que o crente deve fazer.

Observe os Salmos, por exemplo. Não me recordo de algum que tenha sido escrito com o propósito do salmista dizer o que ele vai fazer pra Deus ou o que precisa realizar diante de Deus. As letras bíblicas são recheadas de pedidos a Deus, entronização de Sua soberania e constante júbilo por ter nos tirado das amarras do pecado. Não há, salvo melhor juízo, letras que partam do homem para Deus, e sim, como já dissemos, sempre o aposto: começam com Deus, sobre quem Ele é e depois chegam até o homem.

Hoje é tempo de renunciar meu eu
Lembrar que numa cruz alguém por mim morreu
Hoje é minha vez, agora sou eu
Vou morrer pro mundo e viver pra Deus

A letra se encerra no mesmo padrão anterior: falando sobre o que o homem deve fazer a Deus. Nunca cantei essa música na igreja, mas imaginando isso sendo feito, seria um pouco estranho ouvir todos cantando “hoje é minha vez, agora sou eu; vou morrer pro mundo e viver pra Deus”. A impressão que tenho é de que se estaria levando a congregação mais a uma espécie de “teologia emocional” ou uma “teologia do incentivo”, do que propriamente ensinando a Bíblia.

Assim, que fique registrado: o trunfo, a glória de uma letra cristã e centrada na palavra é ela ensinar a Bíblia ao que canta. Temos a necessidade e carência de músicas que ensinem a Escritura. Se no momento da preleção, deveríamos ter somente a Palavra sendo pregada e deveríamos sair do culto, conhecendo mais sobre a Bíblia, por que seria diferente com o que cantamos?

Concluo classificando como “razoavelmente bíblica e inapropriada ao culto público”.

Por: Filipe Machado. Revisão: Filipe Castelo Branco. Copyright © 2016 Cante as Escrituras. Website: CanteAsEscrituras.com.br. Todos os direitos reservados. Original: Colisão – Anderson Freire (Análise).