Gospel é a palavra inglesa que quer dizer Evangelho. Pena que uma palavra tão bonita tenha sido manchada por uma indústria que se apoderou do termo para fazer dinheiro. Muito dinheiro! Embora venda de tudo, o segmento começou forte – e ainda é – no cenário musical. Gravadoras em parcerias com mega-igrejas lançaram muitos artistas, isso nos idos dos anos 90. Alguns destes nomes não mais estão na crista da onda, outros ainda fazem seus shows por aí. O que é certo mesmo é que o impacto negativo nas igrejas e o desserviço prestado a adoração litúrgica é enorme. É preciso muito trabalho para reverter tal situação.

Para ser mais didático, irei elencar três pontos que evidenciam o porquê de sustentar que a indústria fonográfica, dita Gospel, tem prestado um desserviço a Igreja.

1- Alterou a concepção da adoração

Quando a Igreja adora ao SENHOR com hinos de louvor, ela faz para honrar aquele que é o Cabeça do corpo, exaltando seus atributos. E existe um princípio de que quando Deus é louvado, nós diminuímos para que a sua glória resplandeça e nos envolva. Geralmente é (ou deveria ser) um momento de contrição e contemplação. Outra coisa é que no culto cristão a razão nunca deve ser deixada de lado, pois, devemos refletir sobre aquilo que confessamos. Logo, quando cantamos, não podemos deixar de meditar nas letras das canções.

Acontece que depois do “boom” da música gospel, muito do que acabei de descrever no parágrafo anterior foi subvertido. O motivo é simples: O Gospel usa todo o aparato do entretenimento para se popularizar e lucrar. Isso faz com que a forma de cantar não tenha preocupações com a serenidade litúrgica, pelo contrário, o negócio é agitação. Jogo de luz, som nas alturas, gritos, dancinhas e uma miscelânea de estilos musicais dão ao Gospel a mesma cara das festas mundanas que lotam as casas de shows Brasil afora. Num ambiente como este, fica muito difícil refletir, ponderar, meditar. O clima é de êxtase, de emoções a flor da pele, logo, vem o torpor e os excessos não tardam a aparecer.

O pior é que por conta das nomenclaturas usadas por quem produz esse tipo de entretenimento (adorador, ministério, culto), muitos jovens estão convencidos de que este é o modelo de adoração que deveriam adotar em suas congregações. As igrejas que possuem o louvor mais solene e com uma maior participação da congregação no momento de cantar são tidas como obsoletas, velhas e sem graça. Muitos destes jovens querem transformar o culto num show para se adequar a referência que eles têm de adoração, e daí surgem disputas e facções. Muitos pastores, com medo de perder seus jovens para outras igrejas ou para o mundo acabam cedendo a pressão. Não demora e vemos surgir a figura do “ministro de louvor”, que é um cara com trejeitos de astro pop que comanda o repertório que a igreja vai cantar – geralmente um compilado das músicas que estão nas paradas de sucesso das rádios evangélicas.

Quem não consegue enxergar o mal que existe neste tipo de transição não compreende que a solenidade do culto não pode ser moldada pelos padrões do entretenimento. Há tempo para tudo e entreter-se faz parte da vida, no entanto, o momento de cultuarmos tem uma regulamentação bíblica e não deveria se desviar dela.

2- Trouxe pobreza teológica para o louvor

Por ser parte de uma indústria, o artista gospel irá gravar aquilo que resulte em maior vendagem. No país do carnaval e do “oba-oba”, o que você acha que mais se vende? Não existe muita preocupação com excelência nas letras e arranjos. O negócio é colocar um refrão que cola feito chiclete na cabeça e repetir o quanto puder. Temos exemplos de músicas que estouraram com esta fórmula “mágica”. Eis alguns deles:

“Eu sou de Jesus, eu sou de Jesus. Eu sou de Jesus, eu sou de Jesus”.

“Apaixonado, apaixonado, apaixonado por você Senhor estou”.

“Para direita, para esquerda, para minha frente e para trás (2x)”.

“Todo mundo pulando, pulando, pulando, pulando na presença de Deus”.

É perceptível que tais canções rezam a mesma cartilha. Lembrando que também há repetição de temas. Quem aqui não se lembra das muitas canções que falavam sobre “fazer chover”? O pior é que com a pobreza de letra, também existe pobreza na assimilação do conteúdo bíblico. A música sempre foi um recurso usado para a aprendizagem. Não é diferente quando se trata de aprender a Bíblia. Canções do passado estavam recheadas de passagens bíblicas para levar a congregação a uma robustez doutrinária. Não falo de séculos passados. Sou de uma geração que sabe, no mínimo, o conteúdo de dois salmos (Salmo 100 e 125) graças aos corinhos que cantávamos nas reuniões da igreja. Ademais, quando a preocupação numa composição é mercadológica e não teológica, equívocos doutrinários e até mesmo heresias são facilmente detectadas no produto final. Infelizmente, hoje temos uma geração de crentes que aprendeu errado por cantar errado. Para consertar tamanho estrago, os pastores precisam denunciar o erro e mais que nunca ensinar o correto com muita exposição bíblica.

Dos trechos que usamos como exemplos, a última frase talvez demonstre mais claramente a confusão que as músicas do Gospel geram. E esta frase não aparece apenas numa canção, outros artistas saíram reproduzindo a mesma besteira. Lemos na Escritura encontro de homens com Deus, como Moisés e Jacó, e outros que tiveram visões diante do trono de Deus, Isaías e João. Nenhum deles saiu pulando endoidecido diante da presença do SENHOR. A atitude de todos eles foi de temor e reverência. Prostração ao invés de agitação.

3- Promoveu a banalização do pastorado e ministérios

Se há uma nobre vocação, esta é a do pastorado, pois, por misericórdia o pastor é um homem escolhido para cuidar do rebanho de Deus. Embora seja uma tremenda honra, é também um ofício que requer muito labor. É preciso cuidar de si mesmo, da própria família, para poder cuidar dos outros e das famílias alheias. Vigilância e esmero são essenciais ao trabalho de um pastor que quer ser fiel e cumprir bem a sua vocação. Além disso, o estudo nas Escrituras é bem puxado, pois dele resultará os sermões e as aulas que alimentarão a congregação.

Só que os artistas do Gospel, não satisfeitos em apenas cantar, começaram a querer legitimar sua carreira no segmento religioso adotando títulos eclesiásticos. Pastores e “pastoras” surgiram aos montes. Isso além de banalizar o termo, também banaliza o ofício. Como que estes cantores, priorizando sua carreira artística, viajando toda a semana em turnê, podem pastorear? Soma-se a isso o fato de já congregarem em igrejas com um número elevado de membros. Obviamente que o pouco tempo em que congregam não é o suficiente para conhecer e comungar com todos, quanto mais pastorear, ou seja, cuidar destas pessoas.

Outra banalização comum é a do termo ministério, o que gera uma má compreensão do mesmo. Muitos jovens dizem que tem o ministério de ser levitas apenas por tocar algum instrumento no culto. A não ser que você seja um hebreu da tribo de Levi, não há a mínima possibilidade de você ser levita. E os levitas eram sacerdotes, zelavam de um modo geral pelo santuário do SENHOR, alguns poucos eram músicos. É muito comum ver jovens com anseios artísticos mascarar sua vontade e dizer que vão cumprir um chamado ministerial (Você nunca se perguntou o porquê de todo grupo de louvor almejar gravar um CD?). Quando olhamos para a Escritura e vemos o que é ministério, renúncia é a principal característica. A maioria dos homens chamados por Deus relutou, mas por não resistirem ao Espírito, sucumbiram e deixaram muitas coisas para trás ao se debruçarem na divina seara. Hoje há esta concepção infeliz que mistura ministério ao glamour e as benesses deste mundo. Lamentável!

Conclusão

Textos como esse que escrevo são taxados de “ranzinza”, “severo”, “radical” e etc. Garanto que não se trata de nada disso, é apenas zelo pelo que a Bíblia instrui para a Igreja. Partindo do pressuposto de que ela é a Palavra de Deus, dizer e/ou fazer o oposto ao que diz o texto sagrado é se colocar numa posição de rebelião. Em outras palavras, é ter Deus como oponente. Não sou uma pessoa muito velha e nem saudosista, compreendo que alguns hinos do passado já estão com o prazo de validade vencido, digo isto pensando no vocabulário e nos arranjos de alguns deles. Sou totalmente favorável a novas composições, e não desprezo instrumentos como guitarra e bateria para acompanhar os louvores. Estes são de grande auxílio, desde que a sentença tratada no primeiro parágrafo do primeiro ponto se mantenha:

“Existe um princípio de que quando Deus é louvado, nós diminuímos para que a sua glória resplandeça e nos envolva”.

Que Cristo habite ricamente em vós!

Por: Thiago Oliveira. Revisão: Filipe Castelo Branco. Copyright © 2016 Cante as Escrituras. Website: CanteAsEscrituras.com.br. Todos os direitos reservados. Original: O Desserviço Prestado pela Indústria Gospel.