A chamada ao altar é um assunto delicado
Nos quase quatro anos de vida deste blog, ainda preciso publicar sobre o uso da chamada ao altar na adoração. É importante para mim manter-me respeitoso com outras tradições além da minha (Presbiteriana/Reformada) e tentar entender as práticas de dentro para fora ao invés de de fora para dentro. A chamada ao altar é, na verdade, algo com o qual eu tenho muita experiência (positiva), tendo crescido numa maravilhosa igreja evangélica (Southern Baptist) no Havaí que fielmente pregava a Palavra e nos chamava semanalmente ao arrependimento e à fé. Pragmaticamente, a chamada ao altar naquele contexto era muito mais abrangente que apenas o chamamento aos não cristãos para que publicamente professassem sua fé. Como é o caso em muitos lugares, minha igreja usava aquele momento como uma oportunidade aberta para que as pessoas orassem com o pastor ou os anciãos/diáconos sobre suas necessidades pessoais. Eu professei minha fé publicamente quando tinha sete anos como resposta a uma chamada ao altar e não mais que nove anos depois, quando jovem, fui colocar-me diante da igreja naquele contexto para dedicar minha vida ao ministério pastoral. Portanto, há uma certa empatia em meu coração pelo chamamento ao altar, mesmo que eu tente desafiar, nos próximos momentos, alguns de seus pressupostos.

Aqui estão algumas considerações para os que se importam em ouvi-las. A dificuldade com um post como este é que há carga emocional para alguns devido a tantas experiências boas (até mesmo de mudança de vida) e ruins que as pessoas já tiveram com a chamada ao altar. A maioria das pessoas com as quais converso sobre a chamada ao altar não possuem uma perspectiva neutra. É um tópico polarizante, na maioria das vezes devido ao seu histórico misto de vitória e vandalismo. Eu sei que a evolução da chamada ao altar tem permitido que ele seja alargado para um momento geral aberto para a oração pessoal e o ministério. Eu amo que tais práticas sejam adotadas como parte da adoração corporativa, mas aqui eu quero falar especificamente ao conceito “tradicional” de chamada ao altar – um momento no culto quando se dá a não cristãos a oportunidade de, na hora, fazer a decisão por ingressar na fé em Cristo.

Certamente, Deus tem usado a chamada ao altar para trazer muitos à fé nEle.
Isso é inegável. Das cruzadas de Billy Graham que lotavam estádios às igrejas rurais de 30 pessoas, eu conheço pessoalmente centenas de pessoas que vieram à fé genuína em tais contextos. E quando pecadores como você e eu ingressam na fé, a primeira coisa que quero fazer é regozijar com os anjos de Deus nos céus (Lucas 15:10) por mais uma alma perdida que foi redimida pelo sangue do Cordeiro. Louvado seja Deus.

A chamada ao altar é construída sobre pelo menos um bom pressuposto bíblico.
Eu me posiciono como os reformadores ao acreditar que uma pregação robusta e enfática de Cristo da forma como Ele é mostrado nas Escrituras é, nas palavras do Breve Catecismo de Westminster, “o meio exterior e ordinário” que Deus usa para dar à luz uma fé inicial aos não cristãos e proporcionar fé contínua e santificadora no crente. Assim, chamadas ao altar, na maioria das vezes após o sermão, presumem maravilhosamente que a Palavra pregada fará aquilo que Deus diz que fará: fazer nascer a fé. E é impactante em si mesmo que cristãos que praticaram isso tenham aquele tipo de confiança na Palavra pregada que faz com que eles, no momento exato, emitam um chamado ao arrependimento e à fé. Eu louvo a Deus por isso. Quem dera que aqueles de nós que não praticam o chamamento ao altar tivessem esse tipo de confiança no poder puro da Palavra pregada. ”A fé vem pelo ouvi” (Romanos 10).

Não devemos caricaturar a chamada ao altar devido a modelos ruins de sua prática.
As pessoas que eu conheço que possuem experiências negativas da chamada ao altar provavelmente foram vítimas de perversões e manipulações ou talvez uma prática bem intencionada. Algumas vezes, os chamamentos ao altar têm sido usados para dobrar as pessoas ao chão (emocionalmente e psicologicamente) em submissão. Eles têm sido usados interminavelmente, esperando apenas que “aquela alma perdida ainda em dilema” dê um passo em direção à salvação. Eles têm sido usados para potencializar as estatísticas de conversões, os números de crescimento de igrejas e os egos dos pregadores. Eles têm manipulado as pessoas ao fabricar experiências de conversão falsas nascidas do esforço humano ao invés de esperar o novo nascimento que vem apenas pelo Espírito (João 3:1-8). Com um pouco de prática, nós seres humanos sabemos como pegar algo bom e transformá-lo em algo completamente atroz. Algumas pessoas têm sido profundamente assustadas por essas atrocidades manipulativas e egoístas. Porém, assim como em toda análise, precisamos processar a chamada ao altar pelo que realmente é, na sua melhor forma, com as suas melhores intenções em mente (alguns provavelmente irão pensar que eu não fiz dessa maneira nas próximas linhas, mas aqui vamos nós).

Contudo, eu não encontro muito apoio bíblico para a chamada ao altar na adoração.
As últimas duas palavras são cruciais. Se eu acho apoio bíblico para que pessoas, pelo poder do Espírito, chamem outras pessoas ao arrependimento e fé em ambientes públicos? É claro que sim. Isso vai além dos profetas do Velho Testamento. Nosso Senhor fez isso repetidamente em Seu ministério, como registrado nos Evangelhos. E os apóstolos em Atos também fizeram isso. Eu pergunto, entretanto, se isso deveria ser uma prática rotineira na adoração. Nenhum desses atos registrados ocorreu no contexto da adoração corporativa, mas numa praça pública. Estou com Keller quando ele fala de “adoração evangelística”, na qual a adoração da comunidade da fé deveria ser inteligível e atrativa para não-cristãos, mesmo sendo “de outro mundo”. Na verdade, é sua característica de ser “de outro mundo” que faz dela algo atrativo. Eu espero que toda semana “o indouto ou infiel de todos seja convencido e os segredos de seu coração fiquem manifestos, e assim, lançando-se sobre seu rosto, adore a Deus, publicando que Deus está verdadeiramente entre vós” (1 Coríntios 14:24-25. ACRF). O evangelho na liturgia, culminando com o evangelho pregado e depois disposto e embebido na Mesa do Senhor, deve fazer o trabalho que Deus diz que faz. Deve engendrar nova e maior fé em todos os cristãos e alguns não-cristãos.

Também não encontro muito apoio histórico para a chamada ao altar na adoração.
Toda a minha leitura sugere que as chamadas ao altar se originaram (ou pelo menos se tornaram uma prática mais estabelecida) com a evangelização da fronteira americana, particularmente nos reavivamentos do Segundo Grande Despertamento, capitaneados por líderes como Charles Finney. Reavivamentos em estilo de acampamento eram muito populares, sendo convidativos para audiências não cristãs onde as emoções eram reforçadas com músicas agitadas e onde mensagens evangelísticas inflamadas eram pregadas. Existiu até mesmo o que foi conhecido como o “banco ansioso”, no qual “cristãos em potencial poderiam ser separados da congregação e ‘convertidos através da pregação’”[1] e onde eles iriam refletir em medo e ansiedade sobre o destino de suas almas e a oportunidade de se arrependerem. Eu não tenho dúvidas que Deus trabalhou nesses meios e através desses meios. Eu também não tenho dúvidas de que foi um espetáculo e tanto. O problema veio quando pessoas como Finney pegaram o modelo de acampamento, misturaram com o pragmatismo do ‘ganhe os perdidos através de toda e qualquer maneira’ e decidiram que esse modelo deveria ser importado para as reuniões de adoração corporativa de domingo de manhã.

Qualquer remota análise de longo alcance das práticas históricas de adoração da igreja cristã não mostra qualquer traço de algo como um banco ansioso ou uma chamada ao altar. Afinal, a adoração sempre foi (para dizer o óbvio) uma prática muito cristã, destinada aos cristãos, mesmo que com não cristãos observando (1 Coríntios 14, novamente).

O termo “chamada ao altar” em si mesmo é problemático para mim.
Eu me lembro de ter acordado com esse pensamento um dia quando estava pesquisando a história da adoração cristã medieval e a resposta dos reformadores: “Porque chamamos aquele lugar lá na frente de ‘altar’?” Lutero me fez perguntar. Cristo foi sacrificado uma vez por todos e nenhum outro sacrifício jamais será necessário (Hebreus 10:10). Eu entendo que algumas tradições chamam a Mesa do Senhor de memorial ao altar do sacrifício de Cristo cerca de 2000 anos atrás, e muitos de nós sabemos que a teologia católico-romana argumenta que o sacrifício está sendo feito ali quando é celebrado. Mas isso não é o que cremos na tradição protestante. Por que chamamos de altar? Minha única conclusão é de que estamos fazendo isso para chamar as pessoas para um lugar onde elas podem “vir e morrer” como “sacrifícios vivos” (Romanos 12). Por mim, tudo bem (embora pareça algo grudento, como se estivéssemos enfatizando muito de nós mesmos), mas para o bem da clareza sobre a completude do sacrifício “de uma vez por todas” de Cristo, eu acredito que abandonar o termo seja bem melhor.

A chamada ao altar parece se encaixar melhor numa estrutura teológica arminiana a qual não subscrevo.
Note que a prática do chamamento ao altar coloca forte ênfase na vontade pessoal e na tomada de decisão e, algumas vezes, até mesmo oferecendo um contexto para a fé em um “ponto de crise”. A chamada ao altar é pregada quase sempre sobre o prisma da vontade humana, provendo uma oportunidade para que essa vontade livremente faça uma escolha de Deus e Cristo. Nossas vontades estão em jogo na nossa salvação? Definitivamente sim. Bons arminianos e calvinistas concordam aqui. Onde há diferenciação é em (a) como descrever/entender “livre arbítrio” e (b) onde a vontade humana funciona na hierarquia do trabalho de Deus na fé e salvação. Não posso me aprofundar nisso nesse momento, mas para pesquisa futura, busque bons autores no assunto do livre arbítrio “libertário” (a qual muitos arminianos defendem) versus livre arbítrio “compatibilístico” (a qual muitos calvinistas defendem), e depois combine isso com um pouco de reflexão na ideia bíblica articulada por Lutero chamada de “vontade cativa”. (Eu achei as obras de John Frame, particularmente The Doctrine of God, detalhados e convincentes a esse respeito). Isso vai trazer uma boa luz sobre o assunto a você. Digamos que a teologia arminiana, em minha opinião, coloca pesada ênfase sobre o livre arbítrio (libertário) do ser humano, o qual encamparia uma prática como a chamada ao altar, que é dirigida a conduzir seres humanos ao ponto da livre escolha. Em outras palavras, a ênfase que a chamada ao altar coloca no livre arbítrio é consistente com a ênfase que os arminianos dão em sua estrutura soteriológica. E eu simplesmente não compartilho dessas convicções e ênfases. Eu quero ser claro que eu não estou dizendo que a chamada ao altar é uma prática inerentemente arminiana. Contudo, ela emergiu historicamente de convicções arminianas, e a maneira como geralmente é feita tende a carregá-la (conscientemente ou subconscientemente) de linguagem arminiana.

Também devemos olhar para os primeiros campeões da chamada ao altar e perguntar qual foi sua teologia de alicerce. Finney era um franco arminiano, na verdade. Um chamamento ao altar, tendendo a chamar uma vontade da pessoa à ação está bastante de acordo com a teologia de Finney. E está de acordo com a teologia de muitas igrejas e pastores que ainda praticam a chamada ao altar. É “internamente consistente”, alguém poderia dizer. Mas, mais uma vez, é aqui que eu difiro de alguns de meus queridos irmãos e irmãs. Tal prática, especialmente dotada de muitos de seus pressupostos básicos, simplesmente não harmoniza com o que eu acredito sobre salvação e graça e o trabalho de Deus em ambas. Isso não significa dizer que existam pessoas na tradição reformada que praticam a chamada ao altar. Eu conheço muitos Batistas Reformados e até mesmo Presbiterianos que fazem isso. Tudo que estou dizendo é que a chamada ao altar se encaixa muito melhor na estrutura arminiana por causa de seus pressupostos compartilhados e da ordem dessas ideias.

Eu descobri algumas vezes que aqueles desejosos de empregar a chamada ao altar na adoração têm uma visão muito limitada de quando e como Deus salva.
Sempre que encontrei pessoas que criticavam que a chamada ao altar não era empregada na nossa adoração, elas geralmente davam a impressão (eu posso estar errado) de que estávamos perdendo uma grande oportunidade quando não chamávamos as pessoas à frente. Eles podem dizer: “É como se você tivesse permitido Deus trabalhar nos corações das pessoas e depois não tivesse dado nenhuma oportunidade para que respondessem àquele trabalho, e aí as pessoas não são salvas”. Eu torno a frisar o argumento anterior. Derradeiramente, esse é mais um tipo de coisa para arminiano dizer, e eu não sou arminiano. Isso está baseado na crença de que a salvação das almas feita por Deus depende de fazermos ou não alguma coisa. Essa pode ser a sua soteriologia. Não a minha.

Pessoalmente, sou grato por não ter de carregar o fardo de que almas possam estar dependendo de como atuo como pastor ou evangelista. Meu entendimento da Bíblia me diz que Deus é quem atua, não eu. Meu chamado é ser fiel ao pregar e proclamar a Palavra, mas a boa notícia para mim é que, mesmo quando não sou fiel, os planos de Deus para aqueles aos quais Ele chama não são modificados NEM UM POUCO. Uau! Como calvinista (mais uma vez, eu sei que nem todos são), eu tenho uma grande confiança que Deus irá salvar pessoas em Seu tempo e de Sua maneira. Eu não preciso fabricar eventos ou “dar lugar” para Deus fazer as coisas num culto de adoração. Deus é maior que isso. Se eu chamei pessoas para se arrependerem e confiarem em Jesus no passado? Pode crer que sim. Mas eu vi isso mais no contexto “lá fora no mundo” do que dentre as conversas e relacionamentos naturais que tive. E se alguém está respondendo pela primeira vez em fé a Palavra de Deus pregada, uma chamada ao altar simplesmente não fará ou quebrará sua salvação. Esse é o trabalho de Deus. Só Deus salva, chama, justifica, santifica e glorifica. Isso retira minha força das empreitadas evangelísticas? Não. Na verdade, faz o oposto. Pelo fato de apenas Deus salvar, eu estou livre para fazer minha parte no projeto de missões e pregação do evangelho com confiança e ainda mais coragem [2].

Há outros aspectos da adoração cristã histórica que cumprem as melhores partes do que uma chamada ao altar realiza.
Devido ao fato de a boa adoração ser dialógica (Deus fala, nós respondemos, Deus fala, nós respondemos, etc.), a resposta ao amor de Deus, atos salvíficos e a história do evangelho já estão incluídos. De certa maneira, todo o culto de adoração é uma “chamada e resposta” ao evangelho de forma repetida e cíclica. Podemos, então, dizer que a boa adoração cristã é uma série de implementações da própria “chamada ao altar”. Ainda mais especificamente, porém, a Mesa do Senhor, em sua ampla representação bíblica, é O lugar onde pecadores agem em resposta à chamada para se arrependerem e acreditarem. É o convite de Cristo para que as pessoas venham e se alimentem dEle em fé. É o convite de Cristo para vir ao Seu banquete de casamento, experimentado em parte agora para que nos proporcione uma fome e sede daquilo que está por vir. Assim, se as pessoas estão clamando por um momento no culto para que as pessoas “tomem decisões”, eu creio que quando entendemos a Eucaristia em toda sua arrebatadora glória, temos tudo de que realmente precisamos, e as melhores partes da chamada ao altar estão meramente duplicando o que Deus graciosamente providenciou em seu banquete. Eu tenho ouvido testemunhos de alguns que dizem que eles vieram à fé em Cristo NA Mesa do Senhor. Louvado seja Deus!

Por fim, a chamada ao altar não parece ser realmente necessária.
Eu me sinto tão abençoado por trabalhar num contexto de igreja local em Coral Ridge onde o evangelho é pregado tão puramente e corajosamente de modo que eu possa ser testemunha, olhando à minha esquerda e direita, das vidas mudando ao meu redor… sem uma chamada ao altar. Nós não precisamos de um “momento de decisão” para que as decisões sejam feitas. Nós não precisamos ter pessoas indo à frente oficialmente para que sejam chamadas ao arrependimento e respondam em fé. Estamos vendo acontecer enquanto tentamos, de nossa forma imperfeita, proclamar o evangelho em Palavra, sacramento e liturgia. E a rede de relacionamentos, juntamente com as conversas e conexões feitas durante a semana, mostram-me que pecadores (como eu) estão respondendo em fé! Tudo isso acaba fazendo com que a chamada ao altar, como elemento regular e semanal de adoração, pareça um tanto supérfluo. Pelo que posso entender, ainda é MUITO eficaz em algumas partes do mundo, especialmente nas fronteiras das missões, mas eu, por todas as razões acima, não vejo seu valor para a adoração corporativa.

Conclusão
Talvez possamos resumir este post com uma pergunta penetrante: Nossas práticas missionárias, simplesmente porque possam ser eficazes como missionárias, devem ser regularmente importadas para a adoração corporativa? Uma vez que tudo foi analisado, essa é a nossa pergunta. Alguns não têm problema em dizer “sim”. Eu tenho um problema sério com isso, precisamente porque penso que Deus revelou algumas coisas muito específicas que Ele quer que Seu povo faça e esteja pronto para fazer quando se reúne semanalmente para adorar. E eu acredito, ironicamente, que quando fazemos essas coisas bem, o perdido é encontrado e os pecadores como eu e você encontram fé.

[1] John Witvliet, Worship Seeking Understanding (Grand Rapids: Baker, 2003), 167.

[2] R. C. Sproul’s Chosen By God, and J. I. Packer’s Evangelism and the Sovereignty of God are excellent here.

Por: Zac Hicks. Copyright © Zac Hicks. Website: zachicks.com. Fonte: Thoughts On The Altar Call.

Original: Considerações Sobre a Chamada ao Altar. © Cante as Escrituras. Website: canteasescrituras.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Ruy Pimentel. Revisão: Filipe Castelo Branco.