Deus não reparte talentos igualmente entre os seus servos. Ele dá mais para alguns e menos para outros. Cada repartição tem sua respectiva tentação. Mas nesse texto, Jesus deixou um alerta para seus servos menos talentosos.

Como a Grã-Bretanha Ficou com Talento

Nossa palavra inglesa talent se refere a capacidade inata ou aptidão para realizar algo, normalmente numa média superior a dos outros. Mas a única razão pela qual essa palavra está em nosso léxico é por causa da parábola dos talentos de Jesus, em Mateus 25.14-30.

No Grego Bíblico, a palavra talanton, ancestral etimológico de talento, significava uma unidade de medição de peso, muitas vezes de dinheiro (como um talento de ouro ou prata). No Novo Testamento, um talento era a maior unidade de valor monetário e alguns estimam seu valor contemporâneo na casa de centenas de milhares de dólares.

Mas na parábola, Jesus estava claramente usando este significado monetário de forma metafórica, implicando em qualquer mordomia que nos foi confiada, incluindo nossas habilidades. Isso tornou-se tão comumente ensinada na Grã-Bretanha cristã que, por volta do século XIV, a palavra ‘talento’ foi inserida no inglês significando nossas habilidades e aptidões.

Um Conto dos Servos Talentosos

Na parábola, um homem rico, se preparando para sair de viagem, confia a seus três servos uma quantia de talentos (ou seja, muito dinheiro), com a expectativa de que eles vão ser bons mordomos e lhe proporcionar um bom Retorno sobre o Investimento (ROI). Para um ele dá cinco talentos, para outro, dois, e para o último ele dá um talento. Tudo que nos dito é que o mestre os repartiu a cada um “de acordo com sua capacidade” (Mateus 25.15).

Quando o mestre se foi, os servos de cinco e dois talentos investiram de forma diligente e sábia e obtiveram 100% de ROI, mas o servo de um talento não fez nada, pelo contrário, enterrou o seu. Assim, quando o mestre retorna, ele elogia os dois primeiros servos, mas o último é repreendido e castigado.

A Tentação do Servo Menos Talentoso

Nesta parábola, Jesus claramente quer alertar os servos menos talentosos. Ele não nos dá muitos detalhes, mas vamos considerar uma possível razão pelo qual o servo de um talento era desconfiado e ressentido com seu mestre e, portanto, não investiu seu talento.

Quando o mestre questionou o seu servo, obteve essa resposta:

“Por fim veio o que tinha recebido um talento e disse: ‘Eu sabia que o senhor é um homem severo, que colhe onde não plantou e junta onde não semeou.Por isso, tive medo, saí e escondi o seu talento no chão. Veja, aqui está o que lhe pertence.” (Mateus 25:24-25)

O servo considerava seu mestre injusto, portanto, não confiava nele. Mas porque ele pensava assim? Nada na parábola aponta para uma injustiça do mestre. Parece que alguma coisa no servo foi alimentando essa percepção do mestre. O que seria?

Não é dito no texto, mas não tenho que olhar muito longe para ver uma possível causa: receber menos talento quando outros recebem mais pode parecer injusto para um coração orgulhoso.

A razão pela qual não preciso ir muito longe para ter que ver isso é porque eu vejo como meu próprio orgulho responde aos servos mais talentosos. Estou cercado de pessoas que receberam do mestre mais talento do que eu. Eles leem mais rápido, escrevem mais rápido, escrevem melhor, têm intelectos mais brilhantes, têm melhor memória, fazem mais, são administradores mais eficientes, mais criativos, pregadores mais eficazes e assim por diante. Estou constantemente tentado a cobiçar os talentos que os outros têm e me perguntar: ‘porque meu mestre não me deu mais talentos?’

Eu nem sempre reconheço isso como cobiça. A forma como isso geralmente se manifesta a mim é por meio do desânimo e auto piedade. Emocionalmente, eu me sinto como um perdedor. E para ser honesto, há momentos em que fantasio me mudar para uma cabana quieta no norte de Minnesota para escapar das pressões que expõem os meus talentos menores e apenas ler livros. Você sabe o que é isso? É uma fantasia caprichada de enterrar o talento. Eu acho que é uma tentação comum a todos os servos menos talentosos (1 Coríntios 10:13).

E tudo é alimentado pelo orgulho. Todo o sentimento ruim sobre eu mesmo é sobre eu mesmo. É uma forma de auto adoração. Não há amor pelo mestre, não há amor por mais ninguém. Não há reconhecimento da maravilha que é receber tudo de um mestre que não me deve nada, não há constatação de que um talento é muito mais do que eu mereço cuidar e só parece pequeno comparado com múltiplos talentos que os outros possuem.

Eu acho que é, pelo menos, uma das razões pela qual o mestre na parábola chamou o servo menos talentoso de “mau e preguiçoso” (Mateus 25:26). O mestre deu ao servo menos talentos, e isso significava menos oportunidades e menos capacidade para o servo se distinguir e, portanto, ele viu o mestre como um homem duro e injusto. Então, ele enterrou seu talento e entregou-se aos seus próprios interesses e atividades más.

A Igreja Não é um Show de Talento

O orgulho infecta todos nós, servos pecadores, não importa quantos talentos nós temos. Servos mais talentosos têm suas próprias tentações e Jesus dirige-se a estes em outros lugares. Mas nesta parábola, ele adverte servos menos talentosos para terem cuidado com o orgulho, que pode formar perigosamente uma perspectiva errada em nossa mente. E quando percebemos isto em nós mesmos, há algumas maneiras certas para reagir:

Arrependa-se do orgulho. Esta parábola nos mostra o perigo espiritual do orgulho para servos menos talentosos. Quando notamos isso, devemos nos arrepender. E seremos sábios se ficarmos em alerta para como a auto piedade e desânimo agem nesse sentido, pois são cavalos de Tróia para o orgulho pecaminoso. Ele nos faz sentir como se precisássemos de conforto quando, na verdade, precisamos de arrependimento.

Confie no Mestre. Nosso mestre não é injusto na divisão dos talentos. Ele tem propósitos sábios e, se nós conhecemos bem nossas Bíblias, sabemos que os propósitos de Deus são frequentemente muito diferentes do que nossas percepções deles. Vamos confiar nele (Provérbios 3:5-6) e cultivar o contentamento com o que nos é dado (Hebreus 13:5).

Ser fiel com o seu talento. Devemos lembrar que os servos de cinco e dois talentos receberam o mesmo elogio do mestre. Não importa quantos talentos recebemos, nosso mestre está à procura de fidelidade. Ele vai elogiar a fidelidade com pouco e recompensá-lo com muito no reino (Mateus 25:21).

A igreja não é um show de talentos. É o corpo de Cristo com cada parte cooperando para a saúde do todo. O nosso Mestre não quer que nos concentremos na quantidade de nossos talentos em comparação com outros. Essa é a sua forma de repartir e é a melhor forma. Ele quer que nos concentremos em sermos fiéis com o que ele nos deu. Se assim fizermos, vamos ouvir ele dizer: “muito bem, servo bom e fiel!”

Por: Jon Bloom. Copyright © 2016 Desiring God. Original: It’s Not a Talent Show

Tradução: Thiago Holanda. Revisão: Filipe Castelo Branco. © 2016 Cante as Escrituras. Original: Não é um Show de Talento

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