Vivemos em tempos onde está na moda criticar tudo e a todos. Estamos correndo e buscando erros nos outros, a fim de criticarmos e sermos reconhecidos como “especialistas” em determinada área. E é exatamente o que acontece com a letra de hoje. Alguns amam seu teor, enquanto outros acham que ela é extremamente contrária à Bíblia, pois, supostamente, salienta coisas que a Bíblia não fala sobre o homem. E quem tem a razão?

Esta canção pode ser entendida de duas formas: bíblica ou antropocêntrica. Quer dizer, buscando a glória de Deus ou trazendo o homem para o centro de tudo.

Sou da opinião de que o autor não buscou trazer o homem para o centro da letra, e sim expressou quem o crente é, uma vez que Cristo o salvou. Confesso, porém, que não posso me certificar de que esta é a opinião do autor e por isso falaremos a partir desta perspectiva. Mas ainda que não tenha certeza, o teor da música, especialmente do “Espírito Santo se move em você”, parece confirmar que é uma letra dirigida aos crentes genuínos. Vamos à análise.

Quero que valorize o que você tem
Você é um ser você é alguém, tão importante para Deus
Nada de ficar sofrendo angústia e dor
neste seu complexo interior dizendo às
vezes que não é ninguém

Toda esta música possui a finalidade de animar e estimular aquele crente cansado e abatido com as lutas da vida. Procura relembrar àqueles crentes que como o salmista, estão “quase se desviando” na fé (Sl 73.2), que o Senhor lhes têm chamado a uma nova vida, de maneira que precisamos, seguidamente, olhar para Cristo, o “autor e consumador da fé” (Hb 12.2).

A Escritura nos diz que o homem descrente é inimigo de Deus. É assim que apóstolo escreve: “Em que noutro tempo andastes […] e éramos por natureza filhos da ira, como os outros também”. O crente precisa entender que para o Senhor, ele é importante. Não porque tenha algo que possa oferecer, mas porque Cristo deu a Sua vida por aqueles que o Pai lhe enviou (Jo 10.15). E como o Pai ama o Filho, também ama aqueles que n’Ele foram adotados (Ef 1.5).

Muitos crentes, como diz a música, padecem de angústia e dor, se condoendo e crendo que não são “ninguém”. Olham, como muitas vezes vemos nos personagens bíblicos, apenas para a situação do “aqui” e “agora”, e se esquecem do que o Senhor prometeu, de que se O buscarmos acima de todas as coisas, tudo o que é necessário para a vida nos seria acrescentado (Mt 6.33). Também de que cuida, constantemente, de nós: “Não temais, pois; mais valeis vós do que muitos passarinhos” (Mt 10.31). E prometeu jamais nos abandonar: “eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos. Amém” (Mt 28.20).

Quando o crente relembra e coloca estas coisas em seu coração, ainda que a vida lhe seja dura e pesada (como é para todos), consegue encontrar alívio, segurança e novo ânimo no Senhor.

Eu venho falar do valor que você tem
Ele está em você o Espírito Santo se move em você até com gemidos
Inexprimíveis, inexprimíveis

É preciso entender o contexto do versículo, de onde o autor retirou esta estrofe: “E da mesma maneira também o Espírito ajuda as nossas fraquezas; porque não sabemos o que havemos de pedir como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis” (Rm 8.26).

O apóstolo está falando que nós, os crentes, ainda que sejamos salvos e iluminados pelo Senhor, muitas vezes não sabemos como pedir as coisas a Deus. Pedimos para nossa própria ganância ou falamos de maneira totalmente equivocada, ou até mesmo sem entender o que estamos pedindo diante do Eterno. Daí o apóstolo explicar e demonstrar que não são as nossas meras palavras que fazem algo acontecer e sim o Espírito Santo de Deus, o qual como que “ora por nós”, ao Pai. A intenção é dizer: “irmãos, muitas vezes falamos bobagem ou não conseguimos expressar o que desejamos, mas o Espírito Santo de Deus, o qual habita na Igreja e consequentemente em Seus filhos, está constantemente com Deus, na Trindade e por isso nossas orações chegam a Ele de maneira perfeita.”

Esta parte da música também pode ser entendida a partir do versículo: “O vento assopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito” (Jo 3.8). Todo o que é guiado por Deus, muitas vezes não sabe para onde vai nem o que o Senhor tem guardado para o dia de amanhã. Todavia, de uma coisa todos os crentes podem estar certos: de que Seus planos são melhores do que os nossos, como lemos: “Do homem são as preparações do coração, mas do SENHOR a resposta da língua” (Pv 16.1).

Aí você pode então perceber que para ele
há algo importante em você
Por isso levante e cante exalte ao senhor
Você tem valor, o Espírito Santo se move em você

Diz o salmista: “Louvarei ao Senhor durante a minha vida; cantarei louvores ao meu Deus enquanto eu for vivo” (Sl 146.2). E também: “Louvai ao SENHOR. Louvai ao SENHOR, porque ele é bom, porque a sua misericórdia dura para sempre” (Sl 106.1).

Algumas pessoas pensam que o crente não deveria ser agradecido pelo que o Senhor fez por ele. Em vez disso, deveria se alegrar, somente, por quem Deus é em si mesmo. Entretanto, não é este o padrão das Escrituras. Não é errado se alegrar no Senhor pelo que Ele fez por nós, pois assim nos foi registrado: “Nós o amamos a ele porque ele nos amou primeiro” (1Jo 4.19). A razão de amarmos a Deus é porque Ele se mostrou favorável a nós, quando ainda éramos Seus inimigos e isto se confirma em vários lugares, especialmente na parábola do senhor que perdoa as dívidas de seus servos (Mt 18).

É verdade que esta estrofe poderia ser melhorada, sendo a parte “você tem valor”, acrescida ou trocada por “servo inútil e sem valor, mas que pertence ao meu Senhor”, como sugeriu, certa vez, o Rev. Josafá Vasconcelos, da Igreja Presbiteriana da Herança Reformada. Seja como for, se entendida dentro do aspecto que temos tratado, não há problema em ficar como está.

Encerro esta análise, observando que mesmo sendo uma letra muito bíblica, o seu teor não tem a finalidade de, diretamente, render glórias a Deus por quem Ele é. É uma música mais para se ouvir em casa ou em algum momento diferente do culto, do que propriamente na reunião dos santos. Conheço igrejas que cantam esta música e é comum ela ser utilizada para o “momento dos abraços”, onde todos da congregação são convidados a se abraçar – o que não é inerentemente errado, mas não leva a um sentido direto de adoração ao Senhor e não é o propósito maior do culto. Ainda outros utilizam esta música para fazer “evangelismos”, mas como visto, seu conteúdo remete aos crentes, sendo incorreto usar para este fim.

Concluo, assim, classificando como “bíblica e não apropriada ao culto público”.

Por: Filipe Machado. Revisão: Filipe Castelo Branco. Copyright © 2016 Cante as Escrituras. Website: CanteAsEscrituras.com.br. Todos os direitos reservados. Original: Quero Que Valorize – Armando Filho (Análise).