Vamos ser diretos: a música de hoje não requer maiores explanações. Quase todos conhecem sua letra e a maioria dos crentes já a ouviu e/ou cantou alguma vez na vida. Porém, mais do que ouvir e saber sua composição, importa que creiamos no que ela diz e também a coloquemos em prática.

Muitas são as curiosidades sobre esta música e você pode as conferir neste link. Existem várias versões em português sobre ela – só em inglês existem cinquenta e três, para se ter uma ideia. Seja qual tradução usemos, o que importa é o conteúdo central: Deus. Vamos à análise

Castelo forte é nosso Deus,
Espada e bom escudo,
Com seu poder defende os seus,
Em todo transe agudo.

Esta música é praticamente uma paráfrase do Salmo 46 e nela o autor, Lutero, buscou exaltar a grandiosidade do Senhor. E para os tempos antigos, o que poderia ser melhor do que comparar o Senhor a um castelo forte, espada e bom escudo? Em tempos medievais onde os castelos representam toda a fortaleza e poderio de uma nação, e a espada era um excelente instrumento de defesa e ataque junto com o escudo, nada mais excelente para ser usado como figura de linguagem.

Lutero era um profundo teólogo, não só porque foi convertido pelo Senhor e pregou a justificação pela fé (Rm 1.17; Ef 2.8), e sim porque entendia que a arte deveria ser usada para a glória de Deus – e esta é uma característica perdida em nossos dias. Não sabemos dizer “aquela banda é muito boa”, se ela não falar explicitamente de Jesus.

A igreja está carente da boa teologia que deveria jorrar de um bom púlpito. Pinturas, música, comida e bebida – tudo deve ser feito para a glória de Deus (1Co 10.31). Para ilustrar, quantos crentes existem e que possuem uma excelente banda que não seja de “louvor” dentro da igreja e que seja realmente famosa pelo mundo? Praticamente nenhuma, porque, em geral, se acredita que louvor é só cantar e tocar dentro da igreja. Lutero certamente abominaria esta ideia contrária às Escrituras. Lutero amava a arte, porque ela havia sido concebida pelo próprio Deus.

Com fúria pertinaz,
Persegue Satanás,
Com artimanhas tais,
E astúcias tão cruéis,
Que iguais não há na terra.

Aqui, nos vêm à mente o que o apóstolo Pedro relembra os crentes, a saber, de que as investidas do Diabo são semelhantes à astúcia e força de um leão: “Sede sóbrios; vigiai; porque o diabo, vosso adversário, anda em derredor, bramando como leão, buscando a quem possa tragar” (1Pe 5.8). E é por isso que devemos orar sem cessar (1Ts 5.17), “Porque a carne cobiça contra o Espírito, e o Espírito contra a carne; e estes opõem-se um ao outro, para que não façais o que quereis” (Gl 5.17).

Lutando contra o romanismo, o qual é uma perfeita mistura entre verdade e erro, Lutero via como o Inimigo era cruel, a ponto de levar os homens para longe de Deus e fazendo-os acreditar que estavam se aproximando d’Ele. Toda a vida sofrida do reformador, só lhe fez mais consciente de que nossa vida é muito mais semelhante a um campo de batalha, do que férias em um lugar paradisíaco.

A nossa força nada faz,
Estamos, sim perdidos;
Mas nosso Deus socorro traz,
E somos protegidos.

Se por um lado os crentes não devem temer ao Inimigo, por outro não devem subestimar sua força. Já disse alguém que Satanás é infinitamente mais forte que qualquer homem e por isso deve ser temido. A força do crente para vencer as trevas, não está no próprio homem, mas no sangue de Cristo.

É interessante notar que a letra diz “nosso Deus socorro traz”, o que é constantemente visto pela Escritura. Mas note algo importante: a Bíblia nunca diz como, quando e de que forma o socorro virá. Isto é verdade quando lemos: “Não veio sobre vós tentação, senão humana; mas fiel é Deus, que não vos deixará tentar acima do que podeis, antes com a tentação dará também o escape, para que a possais suportar” (1Co 10.13). Qual escape? Em que momento ele virá? Como ele vai surgir? São perguntas sem respostas. Também Tiago escreve, mostrando que o Senhor triunfará, mas não nos diz em que momento da provação: “Sujeitai-vos, pois, a Deus, resisti ao diabo, e ele fugirá de vós” (Tg 4.7).

Isso nos ensina que devemos confiar no Senhor, independentemente dos meios e em que tempo Ele atuará mais objetivamente para nos trazer o socorro e proteção – embora saibamos que n’Ele estamos sempre protegidos.

Defende-nos Jesus,
O que venceu na cruz,
Senhor dos altos céus;
E sendo o próprio Deus,
Triunfa na batalha.

A música continua e nos mostra, então, que a defesa do crente em Cristo, se dá pela vida e morte do Senhor na cruz. A ascensão de Cristo completou a obra de Jesus na terra, de modo que se sentou à direita de Deus (Lc 22.69), vencendo a morte (pois o salário do pecado é a morte – Rm 6.23) e triunfando na batalha.

Se nos quisessem devorar,
Demônios não contados,
Não nos podiam assustar,
Nem somos derrotados.

A partir da exaltação de Cristo, Lutero compara a magnitude de Deus, novamente, com as investidas das trevas. Todavia, agora relembra os outros de que, à semelhança do que lemos, “nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8.1), porque em Cristo somos mais que vencedores (Rm 8.37).

O grande acusador,
Dos servos do Senhor,
Já condenado está;
Vencido cairá,
Por uma só palavra.

Observemos algo salutar: o grande acusador (o Diabo, como lemos em Rm 8.33) já condenado está. O inimigo dos crentes não está livre para enganar as nações e muito menos os crentes. Ele já foi condenado e sua atuação é absolutamente controlada pelo Senhor. Como disse Calvino, “o Diabo é o Diabo de Deus”, tal qual um cão preso à coleira daquele que o domina.

Jamais cogitemos a ideia de que Deus luta em pé de igualdade com o Diabo, pois fazer tal coisa seria menosprezar a soberania de Deus e atribuir uma força ao inimigo que nem a Bíblia indica. O apóstolo Paulo escreveu aos crentes: “o Senhor desfará pelo assopro da sua boca, e aniquilará pelo esplendor da sua vinda” (2Ts 2.8). O Diabo é poderoso, mas só age conforme o conselho de Deus e por isso não devemos viver assustados, como se em cada esquina o inimigo pudesse nos matar, “porque maior é o que está em vós do que o que está no mundo” (1Jo 4.4).

Sim, que a palavra ficará,
Sabemos com certeza,
E nada nos assustará,
Com Cristo por defesa.

“O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não hão de passar” (Mt 24.35). O conhecido versículo nos relembra de que a confiança do crente está na firmeza e fidelidade de Deus pela Sua palavra. Ao contrário de nós, que por natureza somos infiéis nos contratos (Rm 1.31), Deus mantêm Seus dizeres e jamais se arrepende ou muda de opinião.

É a Bíblia e somente ela que nos traz refresco e calmaria nos momentos de angústia. É verdade que é o Espírito Santo quem nos dirige, mas Ele sempre nos guia através daquilo que já lemos – ou alguém espera ser ensinado por Deus, ainda que não leia Sua revelação, isto é, a Bíblia?

Lutero, mesmo em face da morte e com todas as forças contrárias a ele, sabia que “nada nos assustará”, pois em Cristo temos tudo o que necessitamos para nos mantermos firmes e inabaláveis. Aliás, o próprio Jesus nos prometeu isso: “Mas, quando vos entregarem, não vos dê cuidado como, ou o que haveis de falar, porque naquela mesma hora vos será ministrado o que haveis de dizer” (Mt 10.19).

Se temos de perder,
Os filhos, bens, mulher,
Embora a vida vá,
Por nós Jesus está,
E dar-nos-á seu Reino.

Convém notar que uma das traduções brasileiras diz “Se temos de perder, família, bens, poder”, quando correto é “filhos, bens, mulher”. Na primeira tradução a referência ao cônjuge não é tratada e realmente não sei o motivo, mas o fato é que não está correta.

Se você é muito jovem e ainda não trabalhou por vários anos ou não é casado e tem filhos, talvez tenha dificuldade para compreender a profundidade destas palavras. Mas caso você já seja mais crescido, sabe que a última coisa que desejamos perder na vida são os filhos, mulher e bens que adquirimos (ou melhor, ganhamos do Senhor através do trabalho que nos concedeu) com tanto esforço.

Perder a família é simplesmente a pior e mais lastimável coisa que pode acontecer a qualquer ser humano. Dez cânceres seguidos são mais fácil do que perder um filho ou esposa. Ficar anos desempregado ou perder um membro do corpo é mais tranquilo do que ver a vida de um querido se indo. As dores de Jó, devido ao seu péssimo estado físico, não eram nada quando comparadas à dor de perder todos os seus filhos repentinamente. Não existe dor ou tristeza no mundo que se compare a perder filhos e o cônjuge. Simplesmente nada pode ser mais cruel ou colocar um vazio tão grande no coração do homem, do que perder aqueles que lhe eram mais amados e chegados.

Todavia, ainda assim, buscando forças humanamente impossíveis, ainda que com lágrimas e profundo desespero, o crente pode se refugiar em Cristo. Certamente não será fácil, mas o Senhor nos deixa sua promessa: “eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos” (Mt 28.20). E espero que nenhum dos leitores precise passar por tais momentos de tristeza, para aprender a confiar verdadeiramente no Senhor.

Concluo, assim, a classificando como “bíblica e apropriada ao culto público”.

Por: Filipe Machado. Revisão: Filipe Castelo Branco. Copyright © Cante as Escrituras 2016. Original: Castelo Forte – Martinho Lutero (Análise)

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