Na vida cristã existe uma grande distância entre o que deveríamos fazer e o que de fato fazemos. Coisas da nossa natureza inclinada para o mal, sei que você me entende. É aquela triste realidade de que Paulo trata em Romanos 7. Na adoração não teria como ser diferente, até porque ela envolve a participação de dois entes: o Adorado e o adorador. E esse tal de adorador, eu e você, é um carinha bem, bem, bem ruinzinho, que erra mais do que acerta e vive buscando em primeiro lugar todas as coisas esperando que o reino e a sua justiça lhe sejam acrescentados. Dentro dessa perspectiva, no que tange à adoração o que deveríamos fazer é muitas vezes algo bem diferente do que fazemos.

O que deveríamos fazer? Adorar ao Senhor sempre, estando humilhado ou sendo honrado, na fartura ou na fome, na abundância como na escassez. A adoração a Deus deveria ocorrer em tudo e em todas as circunstâncias. O ideal da adoração está nas palavras de grande sofredor: “Nu saí do ventre de minha mãe e nu voltarei; o SENHOR o deu e o SENHOR o tomou; bendito seja o nome do SENHOR!”. Este é o ideal: às favas com as circunstâncias, adoremos ao Senhor sempre.

Isso é o que deveríamos fazer. Mas…

A realidade, o que fazemos, é que “adoramos” ao Senhor com muito mais frequência na hora do sofrimento, e por interesse. A dor tem essa capacidade extraordinária de nos levar aos pés do Criador e de intensificar e aprofundar nossa devoção. Não deveria ser assim, mas assim é – negue quem puder. Quando dói o calo, lá estamos nós, buscando aquele que pode cessar a dor. Sei que isso é assim com você, pois é assim com todo mundo. Parece que esse modo interesseiro de buscar a Deus está impresso em algum gene do nosso DNA. Davi é uma prova disso.

Dê uma espiada no salmo 86 e você verá um excelente exemplo de canção oratória que mescla adoração ideal com pseudoadoração interesseira, motivada não pelo amor puro ao Adorado, mas pela tentativa do adorador de manipular o Adorado pela força do braço humano. Dê uma lida no salmo 86 e depois prosseguimos.

No versículo 14, fica claro o que levou Davi a compor essa oração cantada: “Ó Deus, os soberbos se têm levantado contra mim, e um bando de violentos atenta contra a minha vida; eles não te consideram”. O negócio era este: Davi estava sendo perseguido; para variar, havia gente querendo matá-lo. Ele estava com medo de morrer e precisava da proteção de Deus. Davi estava sofrendo. Por isso, ele se lança a uma oração cantada, que tem, sim, muito de adoração pura e correta, aquela que tem como finalidade apenas exaltar a pessoa de Deus por meio de suas qualidades e de seus feitos. Alguns exemplos dos acertos de Davi:

“Pois tu, Senhor, és bom e compassivo; abundante em benignidade para com todos os que te invocam” (v. 5).
“Não há entre os deuses semelhante a ti, Senhor; e nada existe que se compare às tuas obras” (v. 8).
“Pois tu és grande e operas maravilhas; só tu és Deus!” (v. 10).
“Mas tu, Senhor, és Deus compassivo e cheio de graça, paciente e grande em misericórdia e em verdade” (v. 15).

Até aí, tudo certo. Apesar de seu sofrimento, Davi está adorando a Deus como Deus tem de ser adorado. Mas, como todo bom (ou mau?) ser humano, Davi fraqueja e faz como eu e você temos a mania de fazer: ele deixa de lado o teocentrismo e parte para o antropocentrismo descarado, salpicando a adoração com argumentos cujo objetivo é manipular Deus, a fim de que seu sofrimento chegue ao fim. Perceba:

“Inclina, SENHOR, os ouvidos e responde-me, pois estou aflito e necessitado” (v. 1). O que Davi deseja aqui é que Deus incline seus ouvidos para ele e lhe responda. Ponto. Ele não poderia simplesmente ter dito “Inclina, SENHOR, os ouvidos e responde-me”? Mas não. Davi tenta comover o coração do Senhor, para conseguir obter o fim de seu sofrimento. Por isso, ele prossegue: “pois estou aflito e necessitado”. Em outras palavras: “Papai, olha como estou sofrendo! Por causa disso, faze o que eu quero!”. Davi estava fazendo aquele beicinho que nossos filhos pequenos costumam fazer para nos comover e conseguir o que querem.

A tentativa de Davi de manipular Deus fica ainda mais explícita no versículo seguinte:

“Preserva a minha alma, pois eu sou piedoso; tu, ó Deus meu, salva o teu servo que em ti confia” (v.2). Repare uma coisa. Ele poderia simplesmente ter dito “Preserva a minha alma, tu, ó Deus meu, salva o teu servo”. Ponto. Estaria dito. Mas, não, Davi  resolve dar argumentos humanos: “pois eu sou piedoso”. Que beleza. Como todo indivíduo falho e pecador, o salmista usa o mérito pessoal para tentar obter algo de Deus. Aqui, a adoração deixa de ser adoração e se torna uma tentativa de barganha a fim de se obter o fim do sofrimento. É Davi dizendo: “Senhor, olha como sou masterpiedoso! Olha quanta piedade tem em mim! Atenta para esta minha qualidade! E, uma vez que sou tão piedoso, preserva a minha alma”.

E ele vai além: “que em ti confia”. Aqui entra um dos pecados mais comuns em pessoas que dedicam a vida às coisas de Deus, como pastores e teólogos: a soberba espiritual. “Deus, já que eu confio tanto em ti, isto é, já que a minha fé é tão grande, salva o teu servo”.  Repare como Davi tenta obter o que deseja barganhando com Deus com base em meritocracia e não em graça. Ele argumenta que, já que é tão piedoso e tem tanta confiança no Senhor… merece ser preservado e salvo. Ah, como gostamos de apresentar obras e qualidades humanas para tentar fazer Deus cessar nosso sofrimento!

Davi prossegue:

“Compadece-te de mim, ó Senhor, pois a ti clamo de contínuo. Alegra a alma do teu servo, porque a ti, Senhor, elevo a minha alma”. (v. 3-4). Façamos a mesma dinâmica de antes. Ele não poderia ter dito simplesmente “Compadece-te de mim, ó Senhor, alegra a alma do teu servo”? Pronto, estaria dito. Mas, não. Davi, agora, apela para seu esforço. “Uma vez que clamo a ti de contínuo, que me dedico tanto à oração, que fui à vigília, que incluí na minha fala citações de tantos escritores e pregadores famosos que gastei horas decorando, que mostrei como sou espiritualmente dedicado… compadece-te de mim”. E ele, incansável em sua tentativa de estabelecer um troca-troca com o Todo-poderoso, continua: “Uma vez que elevo minha alma a ti, isto é, que devoto tanto esforço pessoal à minha espiritualidade, que oro tanto, jejuo tanto, leio tanto a Bíblia e livros de grandes pensadores cristãos, que gasto tantas horas no seminário, que dou aulas e participo de tantos congressos e conferências teológicas… alegra a alma do teu servo”. Em outras palavras: “Deus, eu sou o cara. Portanto, faze o que desejo”.

Qual é a conclusão de tudo isso?

O salmo 86 é um excelente exemplo de mistura de adoração sincera e pseudoadoração motivada pelo desejo de obter benefícios pessoais. Davi quer o fim do seu sofrimento e por isso apela para a barganha. Seu lado espiritual exalta o Senhor, ao destacar as qualidades e os feitos do Altíssimo. Mas seu lado carnal tenta convencer o Senhor por meio de mérito e esforço pessoais. É bonito vê-lo dizer “Preserva a minha alma, tu, ó Deus meu, salva o teu servo”. Mas é triste ver que ele condiciona o seu pedido – legítimo, diga-se de passagem – a “pois EU estou aflito e necessitado, pois EU sou piedoso, pois EU em ti confio, pois EU a ti clamo de contínuo, pois EU a ti, Senhor, elevo a minha alma”: eu, eu, eu, eu, eu.

A tentação é antiga. Quando estamos sofrendo, podemos elevar nosso coração a Deus em adoração sincera, teocêntrica e cuja única finalidade é, de fato, adorar, estabelecendo tão somente a graça do Adorado como fator determinante do fim de sofrimento. Ou podemos chegar a Deus em pseudoadoração manipuladora, antropocêntrica e cuja única finalidade é, de fato, obter o que queremos. A linha que separa uma da outra é tênue. Por isso, é fácil usar nossos méritos e esforços para barganhar com o Senhor, a fim de tentar levá-lo a ordenar o fim de nosso sofrimento. Devemos estar atentos para não sucumbir a essa tentação.

O sofrimento é um grande discipulador. Ninguém como ele para nos levar aos pés de Deus, clamando “Filho de Davi, tem compaixão de mim”.  Contudo, devemos evitar incorrer no erro de Davi, de misturar uma declaração de amor com o pedido de um presente. No dia em que você fizer uma declaração de amor à sua namorada no intuito de receber algo dela – pior, mostrando-lhe como você é legal no intuito de comovê-la e convencê-la -, espero de coração que ela lhe dê um fora. Pois isso não se faz. É interesse. É feio. É errado. Portanto, é pecado. Do mesmo modo, não “adore” a fim de tentar levar Deus a determinar o fim de seu sofrimento. Pois isso faria de você alguém não só sofredor, mas infeliz, miserável, pobre, cego e nu. Adore, sim, mas única e exclusivamente pelo fato mais importante da adoração: porque Deus é adorável.

Por: Maurício Zágari. Revisão: Filipe Castelo Branco. Copyright © 2016 Cante as Escrituras. Original: Adoração, Sofrimento e a Manipulação de Deus

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