Em 2013, a palavra “selfie” foi inserida no dicionário oficial de Oxford. Na verdade, ela foi a “palavra do ano”. Esse pequeno evento revela algumas coisas importantes sobre nossa cultura, ou, pelo menos, sobre o que valorizamos: 1) a nós mesmos, o que não é necessariamente algo ruim quando visto de forma correta (veja Levítico 19.18), mas principalmente 2) que apreciamos o que outras pessoas acham sobre nossa aparência, especialmente em frente aos espelhos de banheiro (#filter). Nossa cultura valoriza o que outras pessoas pensam de tal modo que, muitos de nós,estamos dispostos a postar fotos ou vídeos regulares de nossos rostos no Instagram, Facebook, YouTube e no Twitter, os maiores exemplos de “tecnologia selfie”. Estou pensando no Instagram em particular, visto que ele promove as selfies mais do que qualquer outro aplicativo. Afinal, no mundo dele o primeiro dia da semana não é o Dia do Senhor, mas o “Domingo da selfie”.

O Problema

A onipresença de um programa como o Instagram, um aplicativo que promove a ideia de que o “eu” é supremo (quer seja intencional ou não), revela uma característica básica,mas problemática que está dentro da cultura em geral. Como a figura mitológica grega Narciso, vimos nossa própria reflexão e nos apaixonamos por ela. Estamos encantados com nossos próprios rostos, nossa própria beleza. E fomos enganados. Cedemos à tecnologia selfie-social que afirma fazer uma coisa (conectar as pessoas), todavia, na realidade,faz outra coisa. Na verdade, não devemos de forma alguma nos iludir pensando que nossos iPhones estão nos ajudando a estar em contato com as pessoas, embora o anzol para usar essa tecnologia é a “conexão” que você faz com elas. Entretanto, a realidade é que você apenas está se conectando com você mesmo: é assim que me pareço; isso é o que eu faço; essa é minha identidade. A tecnologia revela que o que mais importa para nós somos nós mesmos, obviamente. De fato, muitas das nossas ações e decisões agora são feitas com base em como elas serão vistas ou percebidas na esfera social. É como se a isca da tecnologia social tivesse treinado metade do mundo para dizer todos os dias: “Olhe para o meu rosto! Estou aqui! Eu sou importante! Eu importo!”

Nossas selfies estão nos enganando. Consequentemente, criamos um mundo de autoengano.

O Que Fazer

Pensar honestamente sobre o autoengano das selfies é instrutivo para a igreja e, mais especificamente, para os líderes de louvor. De fato, eu diria que o foco no “eu” é a tentação básica que eles enfrentam toda semana. Quando eu lidero e planejo os cultos de adoração, posso garantir que no Domingo estarei olhando para uma congregação inteira que luta contra o rudimentar aspecto de caráter de toda a humanidade: interesse próprio. Isso é o desejo pecaminoso de promover-se e elevar-se acima de Deus, e a tentação central dada em Gênesis 3 – “vocês serão como Deus.” Também posso garantir que o foco da congregação estará em mim durante a maior parte do culto, visto que fico sobre a plataforma por bastante tempo. Portanto, minha tentação também é focar demais em mim mesmo, como lidero os cultos na igreja que frequento. É imperativo, então (quase um clichê, visto que ouvimos isso com tanta frequência), que os líderes de louvor pratiquem a abnegação e a humildade, antes, durante e após o culto.

E aqui quero nos encorajar a seguir um caminho que não é explorado sempre, o qual é considerar como a Bíblia retrata a noção de “face” em alguns lugares, e como isso pode nos ajudar a repensar nossos motivos para a autoexpressão, especialmente em relação aosnossos cultos de adoração.

Quando a Bíblia fala sobre a “face” de Deus, ela é descrita como uma imagem duradoura de graça, bênção e esperança futura para o povo. Em Números 6, por exemplo, parte da benção de Arão é que o Senhor faria “resplandecer o rosto sobre ti” e teria “misericórdia de ti” (6.25). É provável que a oração fluísse de um desejo de receber aquilo que foi dado a Moisés em Êxodo 34.29-35, quando ele desceu do Monte Sinai. Nessa passagem, a face de Moisés estava reunida com a bondade radiante da glória de Deus, a glória que ele experimentou quando Deus passou perante ele em 34.5-7. Em resumo, a “glória” no rosto de Moisés era um emblema da graça e compaixão de Deus pelos Israelitas – ele estava renovando a aliança com Israel apesar de seus pecados, o que o rosto brilhante de Moisés confirmou. No contexto da adoração de Israel, a bênção em Números 6 expressa a esperança de que Deus irá resplandecer sua face, mais uma vez, nos adoradores reunidos na presença dele, assim como Deus fez com Moisés, e concederá sua bênção de graça enquanto eles oferecem sacrifícios.

Há um problema em potencial, visto que Deus diz que “ninguém pode ver minha face e viver” (Êxodo 33.20; cf. Gênesis 32.31). Como é possível que a face de Deus resplandeça em Moisés e sobre os Israelitas por meio da Bênção de Arão se isso é verdade? A restrição de ver a face de Deus na verdade é uma resposta ao pedido inicial de Moisés para que Deus lhe mostre sua “glória” (Êxodo 33.18). Então, sendo ele o indivíduo singular com quem “Yahweh falava face a face, como um homem fala com seu amigo” (Êxodo 33.11), e sendo um profeta que “Yahweh conhecia face a face” (Deuteronômio 34.10), talvez Moisés seja uma exceção. Contudo, na realidade, a resposta é dada em Êxodo 33.22-23: “Quando passar a minha glória, eu te porei numa fenda da penha e com a mão te cobrirei, até que eu tenha passado. Depois, em tirando eu a mão, tu me verás pelas costas; mas a minha face não se verá.” Portanto, a experiência de Moisés como um profeta único que conhece Deus “face a face” é ligada ao fato dele ser o recebedor de uma beatífica visão de Deus. Moisés não pôde ver a face de Deus – isto é, a total manifestação de sua glória – porém, ele pôde vê-la parcialmente, o que deixou uma impressão duradoura, com certeza! A Bênção Sacerdotal em Números 6:24-26 reflete a experiência de Moisés, com a esperança de que o adorador Israelita possa compartilhar da mesma visão da refulgente glória da face de Deus.

Posteriormente, no Velho Testamento, nossa esperança futura (o retorno de Deus à Terra em Jesus Cristo) também é ligada ao resplandecer da face de Deus sobre seu povo. Em Isaías 60, quando Deus retornar à Sião e estabelecer seu reino perpétuo sob seu eterno domínio,o povo de Deus será irradiado com sua glória e a refletirá em seus rostos conforme ela “brilha sobre ti” (60.1-5). No Novo Testamento, Paulo usa essa imagem convertendo-a em uma metáfora em 2 Coríntios 3-4. Ele diz que em Cristo há uma glória maior e ainda mais permanente da qual compartilhamos.

Estes são apenas alguns dos muitos versos na Bíblia que falam sobre a glória da face de Deus e o impacto dela sobre seu povo, mas isso deve ser o que desejamos. Isso deve ser nossa sincera esperança quanto às nossas congregações enquanto as lideramos, quando oramos por elas e quando nos preocupamos com elas. E isso deve estilhaçar nosso interesse próprio e nosso autoengano das selfies.

Realmente, esse é o resultado natural de nos focarmos em Deus. Considerar sua obra, seu poder, sua vontade soberana e sua graça dada a nós, por meio de Cristo, naturalmente nos leva a rejeitar o tipo de autoexpressão que impregna a sociedade de forma tão pecaminosa, porque ao considerarmos estas coisas rejeitamos uma glória (a glória de nossas faces) em favor de uma glória muito maior (a glória de Deus).

Então, com esses textos em mente, é demais pedir que mudemos nosso próprio foco e o de nossas selfies, pedir que repensemos aquilo que pensamos sobre nossas faces? Ao invés de dispersarmos nossos rostos por tantas fábricas de selfies, talvez devêssemos focar em um único ponto, ou melhor, uma única pessoa – a face de Jesus Cristo. As selfiesdizem “Estou aqui! Sou importante! Eu importo!”Deus diz que Ele é o que importa, e a única imagem que deveria nos preocupar é aquela na qual a imagem do Deus invisível repousa. Deus diz que devemos habitar na luz de sua face, a qual é tão claramente vista “na face de Jesus Cristo” (2 Coríntios 4.6), assim como Paulo afirma. Queremos glória. Nós a desejamos. Queremos a luz em nossos rostos, mas somente em Cristo está a “luz do conhecimento da glória de Deus.” (#semfiltro).

Considerações finais

Na realidade, as selfies podem ser apenas mais uma forma de autoengano, uma maneira de dizermos a nós mesmos que somos aquilo que é mais importante, que nós importamos e que nosso “eu” é supremo. Também há uma ironia nisso, pois a tecnologia social é uma elaborada desculpa para correr de si mesmo, em grande parte. Ser humano significa interação social, caminhar e conversar e ser parte da raça humana em diálogos e relacionamentos reais. As redes sociais dispersam essa interação em um conjunto de pontos focais no ciberespaço.

A resposta de Deus é que o que mais importa é Ele. Meu apelo é que pensemos mais claramente sobre como as escrituras retratam a face de Deus, antes de colocarmos nossas faces por toda a Internet. Nossas identidades não se elevam ou declinam devido ao modo como somos percebidos na esfera social. Isso é narcisismo prático. Nossas identidades estão em Jesus e, como cristãos, devemos desejar acima de tudo que o nome de Deus seja proclamado, e não o nosso. De fato, Números 6.27 deixa isso muitíssimo claro. A oração de Arão é que a face de Deus resplandeceria “em nós”, mas com o fim principal de que “meu nome estará sobre o povo de Israel, e eu os abençoarei.”

Você caminharia na luz radiante da face de Deus ao invés de caminhar na sua própria luz, fugaz e efêmera? Não precisamos do pedestal. Não precisamos do desfile. É suficiente para nós o fato de sermos participantes do desfile, de caminharmos em seu triunfo.

Por: Josh Philpot. Copyright © 2014 The Gospel Coalition. Original: Selfies, Self-Deception, and Self-Worship

Tradução: Milton Fernandes. Revisão: Débora Oliveira. © 2016 Cante as Escrituras. Original: Selfies, Autoengano e Autoadoração

Permissões: Você está autorizado e incentivado a reproduzir e distribuir este material em qualquer formato, desde que informe o autor, seu ministério e o tradutor, não altere o conteúdo original e não o utilize para fins comerciais.

comentário(s)