Ontem à noite, como uma deixa, as cigarras começaram sua serenata de verão. Amo o zumbido mecânico e monótono delas, que se parece com uma canção de ninar, jorrando no crepúsculo de uma noite de verão carregada de calor. Desde a minha infância esse tem sido um som fortemente ligado a tudo que é parte do verão – um coro que significa o retorno à quietude, uma invocação para descansar, descansar, descansar.

Após nove meses de escola, atividades e amigos, as quatro crianças Wilkin estão mais uma vez totalmente presentes em nosso lar. Nosso verão será marcado por um pouco de viagem (primos que precisam aproveitar nossa companhia), um pouco de aprendizado (bons livros para ler, boas receitas para experimentar) e por algumas tarefas domésticas que parecem nunca serem feitas durante o ano escolar (não pode ser um acidente o fato de que o número de janelas sujas na minha casa se divide nitidamente por quatro). Porém, o item que está no topo da lista de nossa agenda de verão, e o que todos nós esperamos ansiosamente, é o descanso. Haverá tempo para ouvir as cigarras.

Eis uma coisa marcante sobre a fé cristã: temos um Deus que nos comanda a descansar. Nosso Deus comanda-nos a permanecer parados, a cessar do labor, a entrar de forma ativa no repouso – não meramente como um meio de recuperar nossas forças, mas como um ato de adoração.

Quanto aos deuses de outras religiões e o deus do “eu”, estes requerem uma labuta incessante. Para agradar estes deuses, os adoradores trabalham incessantemente no negócio da abnegação, da busca por aprovação, da peregrinação – ritos repetidos que lutam com esforço para provar o valor do suplicante e ganhar o favor da divindade.

Aqueles que buscam a aprovação de deuses inferiores se comprometem a um curso de exaustão total. Mas não o Cristão. Em nossa obediente observância do descanso, a obra do nosso Salvador é entendida de forma mais clara. Descansamos não para tentar ganhar sua aprovação, mas como um assentimento de que sua aprovação já foi ganha na obra de Cristo na cruz, nessa obra do pôr do sol e iniciadora do Sabá[1]. Cristo trabalhou para que nós pudéssemos descansar. Numa penumbra que se adensava, ele exalou a primeira nota de um coro de descanso infinito, comprado com sangue.

O Deus que nos garante o repouso da alma comanda nossa adoração na forma de descanso corporal. O adorador é abençoado na obediência. Restaurado e pronto, ele continua seu esforço de cultivar seu pedaço de terra do jardim. E, ainda mais importante, ele é lembrado de que tanto o jardim como aquele que lavra a terra são contingentes e derivados, dependentes do sopro sustentador do Criador, a todo momento. O adorador é então aliviado, de forma misericordiosa, de sua crença idólatra e criadora de exaustão, a qual afirma que o trabalho de suas mãos sustenta o universo em parte ou totalmente.

Este é um bom e oportuno lembrete para nossa família.

Nada obstrui nossa capacidade de cumprir o Grande Mandamento como a exaustão. Na inquietação diária da vida normal, o amor de muitos esfria. Mas o descanso que o Senhor ordena a seu povo é um descanso comunal, um descanso que nos coloca em companhia uns com os outros, com as mãos esvaziadas de labor e as mentes esvaziadas de preocupações; porque mãos esvaziadas podem distribuir a próxima rodada de cartas, ou fazer uma coroa de flores, ou passar os picolés para as pessoas ao redor. E mentes esvaziadas podem juntar-se à conversa borbulhando da parte de trás da minivan.

O amor se aquece mais uma vez nos espaços esvaziados do descanso. Lembramo-nos de nosso amor por aquele que nos sustenta, relembramos nosso amor por aqueles que estão à nossa volta. O descanso venerável renova nosso amor por Deus e pelos outros. Esse é o descanso que restaura nossas almas.

Para nossa família, o verão é um período no qual a adoração através do trabalho dá lugar à adoração através do descanso. Não preencheremos estes dias preciosos com mais maneiras de ficarmos distraídos, exaustos e puxados para mil direções diferentes. A oração vespertina das cigarras convida-nos a nos juntarmos à adoração de amar a Deus e uns aos outros com intenção renovada, inundados com gratidão, porque nossas almas encontram descanso na obra terminada de Cristo.

Shakespeare observou muito bem que “o tempo do verão é bem pequeno.” Antes que percebamos, a temporada do trabalho retornará para reivindicar seus trabalhadores. Portanto, ouviremos a invocação das cigarras para descansar, descansar, descansar – sabendo que nosso descanso aqui é tanto vital como breve, ansiosos por aquele descanso futuro, quando nossa canção do Sabá de adoração, uma vez começada, irá redobrar e reverberar por toda a eternidade.

[1] N.E.: Sabá é a transliteração em português do termo em hebraico. Alguns textos usam sábado ou sabbath (transliteração em inglês). Optamos por sabá por ser um termo em português e distinto do dia da semana. Contudo, não se deve confundir com a rainha de Sabá de 1 Reis 10:4.

Por: Jen Wilkin. Copyright © 2013 The Gospel Coalition. Original: Of Summer’s Lease and Sabbath-Song

Tradução: Milton Fernandes. Revisão: Filipe Castelo Branco. © 2016 Cante as Escrituras. Original: Sobre o Tempo do Verão e a Canção do Sabá

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