A meu ver, mesmo que inacabado, Lutero foi quem deu início ao processo de reforma no resgate do culto com base nas escrituras. Pode-se afirmar que a partir de 1523 com as devidas modificações na liturgia da missa romana, a igreja começou sua caminhada rumo ao culto evangélico, ou seja, o culto fundamentado no evangelho. Com a  publicação da formulário de culto, a Formula Missae et Communionis, pode-se perceber que o reformador propõe de imediato consideráveis mudanças à forma de culto solene. Contudo, ambiguamente, Lutero manteve algumas tradições e práticas presentes na missa das igrejas católica romana e ortodoxa. Mesmo assim, Lutero foi uma peça fundamental neste processo.

Segue um breve resumo histórico:

Até 1522, Lutero não estava tão preocupado com a necessidade de se instituir um modelo formal de liturgia e celebrações religiosas. Fato este que muitos dos pastores de diversas cidades na Alemanha, por diversas vezes insistiam que Lutero publicasse uma fórmula do culto que estabelecesse um padrão entre estas igrejas sob influência da reforma em Wittenberg. Até mesmo ao seu amigo Nicolau que o solicitando persistentemente, negou inicialmente tal pedido justificando que primeiro não era dado a instituição e as burocracias eclesiásticas e, em segundo, Lutero dizia não ter condições técnicas e musicais para produzir tal fórmula. Mas, creio que sua preocupação maior pudesse ser o receio de reformular o culto solene acrescendo outras inovações e modismos que pudessem desviar os crentes do evangelho como fazia o clero romano.

Entretanto, havia um grave problema naqueles primeiros anos de reforma na Alemanha. O povo começou uma caçada violenta aos sacerdotes católicos e total vandalismo as edificações e templos da igreja romana. Havia ainda divergências entre vários grupos em diversas questões doutrinárias especialmente a forma de culto, questões sobre o batismo e a ministrarão da ceia. Lutero se vê obrigado a retomar as rédeas em Wittenberg primeiro na pregação e ensino da Palavra. Logo também viu a necessidade do povo ser instruído em uma forma de culto sem o misticismo e o paganismo dos romanistas como também a rejeição de todas as tradições e práticas religiosas que no entender de Lutero, não eram saudáveis.

Em 23 de fevereiro do mesmo ano, Lutero apresentou as primeiras ideias para a reformulação dos cultos e as celebrações religiosas realizadas durante a semana sendo cauteloso por causa da reação violenta do povo aos padres e locais sacros da igreja como também aguardando uma posição definitiva do príncipe eleitor quanto às mudanças necessárias para promover uma fé saudável entre os fieis. Em 11 de março do mesmo ano, foram eliminadas as chamadas missas diárias, sendo substituídas por reuniões matutinas de oração em determinados dias da semana como também a exposição do Antigo e Novo Testamento em reuniões vespertinas durante a semana também agendadas conforme o contexto local.

Em 4 de dezembro deste mesmo ano, seu amigo e também reformador de Zwickau e Dessau, Nicolau Hausmann, foi o primeiro a receber a impressão do formulário da missa e da comunhão da igreja de Wittenberg na primeira edição em latim. Lutero enviou junto a esta edição, uma carta dando satisfação concernente ao processo de reforma em Wittenberg como justificativas em relação a suas ideias expressas no formulário de culto. Ele mesmo afirma que estava cauteloso e tímido a mudanças mais radicais, principalmente por causa dos que se aproveitavam da situação tensa para com espíritos levianos e fastidiosos que, como porcos imundos, irrompem sem fé e sem discernimento e procuram novidade para seu divertimento.[1]

No dia 6 de dezembro de 1523, em um sermão, Martinho Lutero faz a explicação da Formula Missae para a sua igreja em Wittenberg. É notório que Lutero não se apresentou revolucionário e radical quanto as mudanças que o povo esperava de sua parte. Ainda manteve o termo missa, o uso das vestes sacerdotais, diversas músicas ainda cantadas em latim, o uso do ano liturgico, e alguns paramentos e objetivos templários no culto solene. Contudo, Lutero aplicou modificações fundamentais para que notórias diferenças fossem aplicadas e anunciadas de algum modo a todo o mundo de sua época entendendo que aquela igreja não poderia mais ser confundida com os “ímpios de Roma” como costumeiramente o reformador chamava o clero romano.

Enfim, as mudanças aplicadas no culto solene tinham como justificativa uma adoração com base no evangelho e o abandono de tudo aquilo que transmitia uma ideia de propiciação clerical ou de uma missa sacrificial. As mudanças foram saudadas por todos os presentes no aguardo de que a “missa” evangélica viesse dois anos mais tarde ser toda realizada na língua alemã.

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[1] LUTERO, Martin. LUTERO, Obras Selecionadas. Vol. 7. Ed. Sinodal e Ed. Concordia. 2000 – São Leopoldo e Porto Alegre –RS. Pagina 156.

Por: Rogério Bernini Junior. Copyright © 2012 Música Reformada. Original: Pensamento de Lutero sobre a Adoração (Parte 1 de 2)

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