Creio que a pergunta em relação ao pensamento de Lutero sobre adoração é, Qual deveria ser a primeira mudança para estabelecer um modelo de culto fundamentado nas Escrituras? Logo de início, vejamos a nomenclatura usada para a adoração pública conforme o reformador. Em suas palavras, Lutero escreve ao seu amigo e colega de ministério Nicolau Hausmann, pastor da Igreja de Zwickau: Por isso, amado Nicolau, conforme pediste tantas vezes, queremos tratar de uma forma evangélica de celebrar a missa (como dizem) e de comungar (Martinho Lutero, Obras Selecionadas – Vol. 7, p. 156).

Comecemos pela nomenclatura usada por Lutero em relação a cerimônia cristã para adoração pública: Missa. Você possivelmente está perguntando: Mas, se Lutero manteve esta nomenclatura para designar a adoração pública na igreja, houve alguma mudança significativa para um culto bíblico? Sim, mesmo que não pareça, houve mudanças significativas. Entretanto, é importante entender por que Lutero manteve o termo “missa”.

Em primeiro lugar, devemos lembrar que Lutero não desejava de imediato romper com a Igreja Católica Apostólica Romana. De início, sua preocupação era promover reforma religiosa em pontos fundamentais em questões doutrinárias e eclesiásticas. Tendo consciência de que suas publicações e posicionamentos teológicos provocariam toda a Europa, seja do lado romanista como do que apoiaria a reforma, Lutero foi muito tímido e cauteloso, como ele mesmo disse em sua carta ao amigo Nicolau.

Em segundo lugar, não podemos descartar o contexto religioso e histórico em que Lutero estava inserido. O termo ‘missa’ do latim “missae”, que significa; celebração e comunhão, fazia referência aos ritos cúlticos e as cerimônias da igreja romana. A missa (equivalente a culto) só tinha validade e efeito espiritual nos fieis se fosse celebrado os sacramentos, especialmente a eucaristia. Lutero sendo de influência monástica (agostiniana) ainda era influenciado pelo espírito de sua época e desvincular-se repentinamente disso seria impossível. Era natural que o início da reforma fosse conduzido pela providência divina em mudanças essenciais, mas com um passo de cada vez ao longo dos anos.

Mas, como disse antes, houve mudanças significativas na forma de adoração. Lutero manteve o termo “missa” destacando o aspecto espiritual do culto público que, para ele, se dava na comunhão dos santos com o seu Deus por meio da pessoa e obra redentora de Cristo. Lutero, de imediato, aboliu da “missa” todos os ritos, símbolos, objetos, cantos, preces e rezas que fizessem alguma alusão direta ou indireta a missa como meio propiciatório, ou seja, por causa da ministração dos sacramentos a missa romana tinha o efeito salvívico nos fieis. Era o que Lutero e os cristãos de sua época diziam ser a missa sacrificial.

Ele mesmo disse:

“Por isso, confessamos em primeiro lugar que nem jamais foi nossa intenção abolir totalmente todo o culto a Deus, mas apenas purificar novamente esse que está em uso, mas que está viciado pelos piores acréscimos, e mostrar o uso evangélico. Pois, não podemos negar que a missa e a comunhão no pão e no vinho é um rito divinamente instituído por Cristo e que foi observado, primeiramente no tempo de Cristo e depois no tempo dos apóstolos, da forma mais simples e evangélica, sem qualquer acréscimo. No Entanto, no decorrer do tempo, foi ampliado por tantas invenções humana que, em nossos dias, além do nome da missa e da comunhão nada restou.” (Martinho Lutero, Obras Selecionadas – vol. 7, p. 157).

Neste aspecto, veja que Martinho Lutero estabeleceu o que podemos entender e como ele mesmo denominou a “missa” evangélica.

Todo cuidado é pouco quando julgamos os fatos que procederam a reforma com Lutero. De fato, o termo “missa” foi desvinculado pelos reformados especialmente João Calvino por uma questão muito simples e forte; a expressão missa está carregada e impregnada com os princípios e a tradição dogmática dos romanistas. Contudo, Lutero repudiou com todas as forças o conceito sacrificial e intercessório do clero como sendo o culto a Deus.

Em suas palavras, ele condenou a missa romanista chamando-a de esfarrapado e abominável cânone de missa, coletado das fossas e cloacas do mundo inteiro. Ainda, nos mesmos escritos a Nicolau, chama o clero da igreja romana de celibatários ricos, ociosos, poderosos, voluptuosos e imundos, como derradeira devastação (Martinho Lutero, Obras Selecionadas – vol. 7, p. 158). Concluo que mesmo sendo estas mudanças litúrgicas do culto mais lenta e menos agressiva, ainda sim, seria natural que Lutero desejasse a purificação da Igreja em vez de dividi-la.

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Por: Rogério Bernini Junior. Copyright © 2013 Música Reformada. Original: Pensamento de Lutero sobre a Adoração (Parte 2 de 2)

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