Esse texto não é propriamente uma análise de letra para saber se podemos cantar no culto a música Epifania – da banda gaúcha Tanlan. Não é uma canção litúrgica, não foi feita para o culto, mas é de um conteúdo bíblico maduro, envolto a uma bela melodia. Logo, esse texto visa contemplar a beleza desta música, mas precisamente de sua letra, identificando a cosmovisão influenciada pela antropologia reformada. A letra começa assim:

Não sou perfeito, nunca fui, eu sei. Do meu defeito nunca me livrei. E a cada dia eu percebo mais. Essa agonia rouba a minha paz”.

Já neste trecho vemos o indício de que há uma confissão de vileza. Quem canta, canta que não é um bom mocinho. Diante do atestado de pecaminosidade, uma agonia é expressada, capaz de roubar a paz do sujeito que sabe que é pecador e que não é capaz de se livrar do seu pecado por suas próprias mãos. Já aqui me recordo de Davi em seu salmo de confissão, o Salmo 51. Continuemos com a canção, que diz:

Já magoei quem eu disse amar. Ignorei quem quis me ajudar. Pensei que era capaz de tudo. E lá no fundo, eu acreditei”.

Sem vitimização, há aqui a confissão de uma alma orgulhosa e ingrata. Não, não é culpa da sociedade, não é o fruto do meio, é algo intrínseco, que se faz presente no ser humano que descende de Adão, com a natureza caída, corrompida. A megalomania e a crença em si mesmo, uma praga da sociedade contemporânea, cada vez mais narcisística, não foi capaz de produzir paz. A inquietação segue, tal como segue o veredito acerca de si mesmo:

“Sou impagável, incurável, indomável por mim mesmo. Sou incorreto, inquieto, incompleto sem você”.

Aqui temos um resumo da total depravação. Um ensino que os reformados insistiram em guardar, ensinando que desde a Queda, o homem passou de um estado de graça e comunhão com Deus, para um estado de desgraça, onde todas as suas faculdades são afetadas pelo pecado. Vejamos o que nos diz o Catecismo de Heidelberg, composto ainda no século XVI:

Pergunta 7: De onde vem, então, esta natureza corrompida do homem?

Resposta: Da queda e desobediência de nossos primeiros pais, Adão e Eva, no paraíso. Ali, nossa natureza tornou-se tão envenenada, que todos nós somos concebidos e nascidos em pecado.

Referências Bíblicas: Gn 3; Rm 5:12,18,19. Sl 51:5; Jo 3:6.

A Confissão de Fé de Westminster (CFW), outro importante documento, redigido por uma assembleia de puritanos nos diz que: “Desta corrupção original pela qual ficamos totalmente indispostos, adversos a todo o bem e inteiramente inclinados a todo o mal, é que procedem todas as transgressões atuais” (Cap. VI, Art. IV).

Assim, a música nos lembra que a condição do homem caído é uma condição de miséria, onde a criatura, por se rebelar contra o Criador, está incompleta. E aqui recordo Agostinho de Hipona ao dizer: “Fizeste-nos para ti e inquieto está o nosso coração, enquanto não repousar em ti”.

Mas aí vem uma boa notícia. Como nos diz o apóstolo Paulo: “onde abundou o pecado, superabundou a graça” (Rm 5.20). Se a humanidade caiu por conta do primeiro Adão, Cristo como um segundo Adão, é enviado pelo Pai para regenerar e reconciliar com Deus um povo escolhido para formar um reino de sacerdotes. Recorro novamente a CFW:

“Quando Deus converte um pecador e o transfere para o estado de graça, ele o liberta da sua natural escravidão ao pecado e, somente pela sua graça, o habilita a querer e fazer com toda a liberdade o que é espiritualmente bom, mas isso de tal modo que, por causa da corrupção, ainda nele existente, o pecador não faz o bem perfeitamente, nem deseja somente o que é bom, mas também o que é mau” (Cap. IX. Art. IV).

Lutero resume a condição dos regenerados neste mundo como sendo: simultaneamente justos e pecadores. Voltando a CFW: “É no estado de glória que a vontade do homem se torna perfeita e imutavelmente livre para o bem só” (Cap IX. Art. V). Todavia, enquanto esperamos pela glorificação futura, podemos nos alegrar com os efeitos presentes da graça divina e cantar junto o refrão:

Mas Tua graça é mais. Teu amor é o que me traz pra mais perto da tua paz. Sem me esquecer jamais”.

Nesse refrão enxergo a graça irresistível, o amor eletivo de Cristo e a perseverança dos santos. Todas doutrinas oriundas da Reforma, e como diz o título da canção, uma Epifania, ou seja, a manifestação do Divino, onde podemos enxergar sua aparição no mundo para trazer a salvação.

Há ainda uma parte da canção que diz:

Não me deleito quanto ao que eu errei. De todo jeito já me enganei. E a alegoria de viver em vão não caberia nem nessa canção”.

E aqui chamo a atenção de que nosso passado pregresso embora não nos deixe orgulhosos, também não pode ser sempre lembrado de modo que nos faça esquecer tamanha graça e tamanha redenção. Vislumbremos nosso passado caído apenas para valorizarmos o preço pago pelo nosso resgate, que competiu a Cristo pagar. E sigamos cantando:

Mas Tua graça é mais. Teu amor é o que me traz pra mais perto da tua paz. Sem me esquecer jamais”.

Por: Thiago Oliveira. Revisor: Filipe Castelo Branco. Copyright © 2017 Cante as Escrituras. Original: Epifania: Uma balada sobre a condição humana e a Graça de Deus

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