Ao falarmos de música na igreja, algumas questões devem ser consideradas. A música litúrgica é uma expressão de adoração a Deus, e isso deve ser tratado pela própria Bíblia. Um princípio regulador do culto vai defender que só deve estar no culto o que a Bíblia prescreve, então essa regulamentação da Escritura estende-se também por inferência ao que se processa no culto. A música, igualmente ao sermão pregado, deve exalar a Palavra de Deus.

É verdade que numa abordagem poética como nas letras das canções, o artista tem certa liberdade no uso de figuras de linguagem e adornos poéticos para levar o receptor do hino a um estado de sublimidade. Essa questão que envolve a beleza na música é interessante, principalmente envolvendo a música sacra, a música litúrgica.

É necessário dizer também que o uso de linguagem poética com figuras como símiles, metáforas e analogias não deve ferir a doutrina bíblica. Essa também é uma questão importante. A música congregacional deve estar distante de obscuridades, deve ser clara, inteligível. Numa congregação há vários tipos de pessoas, com vários graus de compreensão, com vários históricos culturais diferentes. Isso deve ser levado em consideração quando escolhemos canções para o culto.

Quanto ao uso de músicas contemporâneas nos cultos eu particularmente não vejo problema quanto a isso, no entanto, a música deve ser bíblica, demonstrar um compromisso real com Cristo, ser harmonicamente apropriada e melodicamente acessível para o canto congregacional. A música congregacional deve ser apropriada tanto para crianças, jovens, adultos e idosos.

Há em vários ambientes eclesiásticos debates envolvendo o uso de determinados instrumentos no culto, alguns afirmam que existem instrumentos específicos que não são cabíveis. Vemos que as Escrituras nos mostram que instrumentos de sopro, percussão e cordas eram usados na adoração. Aqui voltamos a questão, o bom senso e bom gosto devem prevalecer ao pensarmos sobre isso. Os instrumentos no culto devem facilitar o canto da congregação e não embaraçar ou prejudicar. Solos intermináveis de guitarra, por exemplo, são de péssimo gosto e falta de bom senso no culto. Ali não é o ambiente para virtuosismo ou exibicionismo. Acho que devemos ter cuidado também no uso de espetaculares arranjos vocais. O canto congregacional deve levar a igreja a cantar e não inibir a congregação de louvar a Deus. A presença de cantores e músicos no culto é bíblica, mas, os tais, não devem prejudicar o canto da igreja com amostragem técnica. O objetivo é levar a igreja a louvar, só isso.

Com isso não estou dizendo que não podem haver solos de guitarra, ou bons arranjos vocais. O que estou dizendo é que, tudo seja feito com ordem. Muitos músicos se acham num show quando estão na verdade num culto. Igrejas que soltam gelo seco, baixam as luzes, preparam uma ambiência para a hora do canto congregacional, estão fora dos parâmetros bíblicos, estão transformando um momento sublime do culto em entretenimento.

Não podemos negar que o momento do canto na igreja envolve uma questão psicológica. Somos seres humanos e música no culto propositadamente envolve nossas afeições pelo divino. A questão da sublimidade do culto envolve a beleza do Eterno no tempo e no espaço, trazendo a temporalidade a glória do infinito e grandioso Deus. Mas, essa questão psicológica no culto deve ser pensada também pelas Escrituras. Ambiência psicológica sugestionável é uma técnica de Marketing bem usada principalmente em shoppings centers e supermercados. Você não vai encontrar num supermercado um grande relógio, vai? Não. Por quê? Porque as horas sendo mostradas apressarão os clientes, isso não é bom. Sabe por que não é bom? Porque quanto mais tempo os clientes estiverem ali, mais gastarão seu dinheiro. Então, você já ouviu algum supermercado tocando trash metal? Acho difícil. Mas por quê? Deve-se colocar músicas calmas para que os clientes demorem mais tempo ali, sem pressa. Percebe? A música exerce um poder sobre nosso ritmo.

Em meu tempo de faculdade, gostava de estudar a noite para a semana de provas. Eu estudava ouvindo música clássica. Me fazia estudar relaxado. Mas ao ir trabalhar de bicicleta, muitas vezes ia escutando um bom blues/rock. Por quê? Porque queria chegar logo ao trabalho, a música mais ritmada me dava ritmo e disposição. E eu gostava disso. Meu relacionamento com a música se dá desde a infância. Tentei ser baterista, mas, vi que não era minha praia, então ao ver e ouvir grandes solos de guitarra feitos por Slash ou Steve Vai e Joe Satriani, ficava vidrado naquilo querendo fazer igual, mas nunca consegui. Mas ouvir esses músicos para mim foi incrível durante muitos anos da minha vida. Eles diziam alguma coisa em seus instrumentos. Onde quero chegar com isso? A música tem poder sobre nossas emoções. A música também tem poder sobre nossa imaginação. Lembro de uma vez que fui ver um workshop de um famoso guitarrista norte-americano que veio a minha cidade. Ao vê-lo tocar, eu desejava estar ali, onde ele estava, desejava fazer o que ele estava fazendo. Entende o que isso quer dizer? Há uma projeção da mente nesse momento. Devemos ter cuidado justamente com isso quando conduzimos a igreja a louvar no culto congregacional.

A igreja não deve ser conduzida a outra coisa senão a contemplar a majestade do Deus que a salvou. A música litúrgica deve levar a congregação à adoração e não à admiração da música em si e por si mesma. A música deve ser bem tocada, cantada e não deve ser medíocre, mas, a finalidade da música litúrgica não é invocar glória para si, mas, reder glória a Deus somente.

Muito do que vemos hoje nas nossas igrejas é um pessoal muito bom tocando e cantando, mas sem uma percepção clara da finalidade da música no culto. De fato, é impossível não dialogarmos com questões culturais, porque somos seres culturais, mas, toda cultura é julgada e avaliada pelo Evangelho, pela Palavra de Deus. Meu objetivo nesse pequeno texto é ajudar irmãos que tem pensado sobre como glorificar a Deus no seu serviço na igreja, no que se refere a música. Que seja útil para músicos instrumentistas, cantores, pastores e líderes em geral.

A Deus seja a glória na igreja, amém.

Por: Thomas Magnum. Revisão: Filipe Castelo Branco. Copyright © 2017 Cante as Escrituras. Original: Música no Culto: Uma reflexão sobre o papel da música e dos músicos no culto

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