Um dos maiores problemas de nossas liturgias – na verdade de nosso cristianismo, mas é mais evidente na liturgia – é a infantilização. Cultuamos como crianças que se recusam a crescer. Síndrome de Peter Pan, alguns dirão. Bem, chame como quiser, só não queira fazer parte do “bando dos meninos perdidos”. Isso é sério!

Podemos demonstrar a infantilização a partir dos repertórios com músicas repetitivas, evasivamente alegres e aeróbicas. Já participou de algum momento de “louvor” que se enquadra neste cenário? Em alguns cultos a repetição e as dancinhas são tantas que dá a impressão de se estar no DVD da Galinha Pintadinha. “Pula, pula, pula”. “Grita, corre, dança”. “Para esquerda e para frente, para a direita e para trás”. Sério que você não enxerga o problema?

Para quem pensa que isto não é nada demais, precisa rever sua concepção de “louvor e adoração”. Diante da presença de Deus, a adoração precisa ser reverente. Sei que para muitos, reverente é sinônimo de chato, mas aí é uma questão de se deixar levar pelo entretenimento pós-moderno, que busca alimentar as sensações. A reverência não anula o motivo do deleite. No caso da adoração, o deleite não deve ser outra coisa senão Deus. Com isso, o culto não deve deixá-lo feliz apenas se houver um estímulo para que você sinta arrepios da ponta do dedo do midinho até seu último fio de cabelo, o que convenhamos, qualquer charlatão que domine técnicas de indução poderá fazer.

Deixe-me ilustrar com um exemplo. Suponha que seu pai ou seu avô foi uma figura de determinada importância em sua localidade. Então a prefeitura decide fazer uma sessão para homenageá-lo. Há toda uma cerimônia e uma série de protocolos a ser cumprido. Você estará vestido formalmente e envolto a formalidades, todavia, o deleite de ver seu parente homenageado fará com que você se regozije com aquele momento, e sentirá os ecos da felicidade sempre que recordar aquela solenidade. No culto solene, podemos sentir a alegria ao ver que Cristo é louvado por uma multidão de pessoas pecadoras feito você, mas que por graça foram lavadas e remidas pelo sangue do Cordeiro. Não importa se você está de camisa de botão e com um hinário na mão cantando Castelo Forte (hino composto por Lutero no séc. 16). O teu íntimo exultará, pois o teu Deus é o teu quinhão. O culto no templo era formal, tinha uma liturgia definida e que se repetia, sem inovações e nem invencionices. Mesmo assim, o salmista foi capaz de dizer:

A minha alma anela, e até desfalece pelos átrios do Senhor; o meu coração e o meu corpo cantam de alegria ao Deus vivo. Salmos 84.2

Mas vivemos um tempo de meninice onde a novidade é uma ditadura que nos força a buscar novas fórmulas de adoração: espontânea, extravagante, emergente, relevante e etc. Deixa eu te dizer: se o teu deleite não está em Deus, o efeito destes estímulos visuais e musicais não será o suficiente para fazer de ti um adorador que adora em “espírito e em verdade”. Estímulo por estímulo, você vai encontrar em qualquer “houseparty“. Portanto, deixe de nutrir as tuas sensações e discipline a tua alma para se abastecer da doce presença do Senhor no culto solene.

Voltando ao tema da infantilização. Alguns até dizem que é preciso ser como criança e jogam Jesus no argumento, tirando-o de contexto, é claro. É verdade que em certo sentido devemos ser como crianças. Quando Cristo falou isto aos discípulos, ele intencionava fazê-los humildes. Veja Mateus 18 como começa. Ali nos diz que os discípulos discutiam quem era o maior. Então Jesus segura a criança e fala que eles deveriam ser humildes como ela (verso 4). Ora, a criança estava ali sem nenhuma pretensão, apenas queria estar perto de Jesus. Ademais, na pirâmide social daquele povo, as crianças eram tidas por irrelevantes. Tanto é que nem eram contadas. Lembra que ficaram de fora da contagem na multiplicação dos pães? Logo, é neste sentido que devemos continuar infantes. Mas em muitas outras passagens, a Escritura nos estimula a crescermos. Paulo não poderia ser mais claro nesse texto:

O propósito é que não sejamos mais como crianças, levados de um lado para outro pelas ondas, nem jogados para cá e para lá por todo vento de doutrina e pela astúcia e esperteza de homens que induzem ao erro. Antes, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo. Efésios 4.14,15

Por que advertimos as crianças a não falarem com estranhos? Porque elas podem se deixar levar, e se derem papo a algum pilantra, podem ser raptadas, abusadas, etc. Assim, Paulo diz que o objetivo não é ser levado como criança, mas firmar-se, como um adulto, crescendo em todas as áreas, em Cristo Jesus. O autor da Carta aos Hebreus dá uma dura nos crentes que ainda estavam se alimentando de leite, quando deveriam comer algo sólido (Hb 5.13-14). Ele então arremata: “portanto, deixemos os ensinos elementares a respeito de Cristo e avancemos para a maturidade” Hb 6.1.

Voltando para o Paulo, talvez a igreja de Corinto tenha sido a mais problemática de todas que o apóstolo plantou. Era uma igreja vaidosa e cheia de sectarismo. Os irmãos usavam os dons para o exibicionismo. Os cultos eram feitos para o alimento do próprio ego. Comunhão era zero, o pessoal estava voltado para o próprio umbigo. Por isso que quando Paulo os escreve e começa a ensinar-lhes coisas básicas, principalmente sobre ordem no culto e o bom uso dos dons, em determinado momento ele diz:

Quando eu era menino, falava como menino, pensava como menino e raciocinava como menino. Quando me tornei homem, deixei para trás as coisas de menino. 1 Coríntios 13:11

Aquela igreja precisava deixar de criancice e amadurecer. Eles estavam no leitinho por que ainda eram imaturos, e o apóstolo associou a sua imaturidade com carnalidade (1Co 3.1-3). Triste é saber que muitas de nossas igrejas são igrejas carnais, adotando cultos carnais onde pessoas carnais alimentam a carne ao invés de se despojarem dela.

Deixemos de meninice! Comecemos por reformar as nossas liturgias, deixando-as simples e reverentes, pois nosso Deus deve ser cultuado com ordem e decência (1Co 14.40), e não com extravagância e pirotecnia. Ao invés de mamadeiras, preparemos os espetos para churrasco. A robustez virá com a sã doutrina, nosso filé mignon.

Por: Thiago Oliveira. Revisão: Filipe Castelo Branco. Copyright © 2017 Cante as Escrituras. Original: O problema da infantilização na adoração

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