Mais austeros, mais fortes e mais profundos, os cânticos do nosso Salvador nos carregam pelo vale da sombra da morte.

Dois indígenas auca cantaram um canto sublime de adoração a Deus diante de um grande congresso missionário em Berlim. Um dos cantores havia perfurado com sua lança o corpo de mártires missionários que haviam desembarcado na selva Equatoriana para falar do amor de Jesus. Mas agora aquele amor havia transformado o seu grito de fúria sanguinária em um cântico de louvor.

Onde Cristo aparece, aparece também uma canção, pois Jesus Cristo é o salvador que canta. “Anunciarei o teu nome a meus irmãos, cantar-te-ei louvores no meio da congregação” (Heb 2:12).

O escritor aos Hebreus atribui a Jesus essas palavras retiradas do Salmo 22, que começam com o clamor “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” Jesus tornou Seu esse clamor na cruz. Mas as passagens de Hebreus nos lembram que o Salmo inteiro é de Cristo — não apenas o clamor de abandono no início, mas também a declaração de vitória no clímax (verso 22).

Jesus cantara esse Salmo muitas vezes antes de ir para a cruz. De fato, Ele conhecia e cantava todos os Salmos na congregação do povo de Deus. Pense no significado que os Salmos adquiriam quando Ele os cantava! Se você deseja uma nova experiência de culto, medite nos Salmos como os Salmos de Jesus.

Você deve ter notado que existem Salmos do tipo “nós”, escritos na primeira pessoa do plural: “Ele […] nos fez povo seu e ovelhas do seu pasto” (Sl 100:3). Jesus canta esses Salmos conosco. Ele é o Pastor que canta; nós somos as ovelhas perdidas que Ele trouxe de volta para casa em regozijo. Ele canta em regozijo sobre nós (Sf 3:17), e conosco, e por nós.

Jesus pode cantar os Salmos do tipo “nós” conosco porque Ele canta os Salmos do tipo “Eu” por nós como nosso Salvador. “Eis-me aqui, cheguei; no rolo do livro está escrito a meu respeito. Deleito-me em fazer a tua vontade, ó Deus meu” (Sl 40:7,8).

Muitos dos Salmos do tipo “Eu” foram escritos pelo Rei Davi. Ele escreveu, não como um indivíduo privado, mas como o Ungido do Senhor, chamado a sofrer como o servo de Deus. O clamor de Davi, pronunciado no Espírito, antecipa a voz do Cristo. Seu brado de vitória antecipa o Canto maior e o Senhor maior (confira Sl 110:1 e Mt 22:43–45). Jesus, depois de Sua ressurreição, explicou os Salmos para mostrar a Seus discípulos que Ele precisava sofrer essas coisas e entrar em Sua glória (Lucas 24:26, 44)

O Sofredor que canta

Cristo conseguia explicar seus sofrimentos e glória a partir dos Salmos porque Ele experimentou a agonia e o êxtase que os Salmos prediziam. O Seu clamor, “Por que me desamparaste?” veio da cova da Sua angústia. Abandonado pelos Seus amigos, rodeado pelos seus inimigos — vistos no Salmo 22 como touros selvagens, leões que rugem, caẽs que latem — Jesus conheceu o terror mais extremo, o inferno do desamparo pelo Seu Pai. O Deus que prometeu nunca deixar nem desamparar os seus (Dt 31:6) desamparou o Seu amado Filho, não para descumprir Sua palavra mas para guardá-la. No escuro momento desse abandono tanto o Pai quanto o Filho pagaram o preço da nossa redenção para sempre.

Que cânticos de agonia Cristo canta — os salmos do Seu sofrimento que selaram a nossa salvação! Ouça, e aprenda dEle hinos que conhecem a comunhão dos Seus sofrimentos, hinos que podem vir da cruz, ou serem entoados de uma cela da prisão à meia-noite. O Salvador que canta não lidera cânticos moldados por comerciais açucarados ou a violenta pornografia da discoteca. Mais austeros, mais fortes e mais profundos, os Seus cânticos nos carregam pelo vale da sombra da morte.

Nosso Salvador se tornou nosso irmão para morrer em nosso lugar. Ele nos ensina cânticos honestos, clamores do coração a Deus: “Os meus dias se desvanecem como a fumaça; os meus ossos ardem como lenha” (Sl 102:3).

Ainda assim, os salmos de Cristo são entoados na fé em Deus. No seu abandono Ele clama “Por quê?”, mas o Seu questionamento pula das profundezas para as alturas. “Meu Deus!” Ele clama, mesmo no seu desamparo. “Tu és santo” (Sl 22:3) […] “salva-me da boca do leão” (v. 21). De fato, ainda antes que Deus responda, a angústia do Seu Ungido torna-se uma declaração de louvor: “Louvar-te-ei no meio da congregação” (v. 22).

O Cristo que cantou em sofrimento agora canta em triunfo. Pedro no Pentecostes pregou sobre a ressurreição de Jesus a partir dos Salmos. É Cristo quem diz, “Não deixarás a minha alma no Sheol, nem permitirás que o teu Santo veja a corrupção” (Salmos 16:10 e Atos 2:27).

Leia todas as citações de Pedro do Salmo 16, e reflita como este Salmo se aplica inteiramente em Cristo. Também se aplicam outras passagens paralelas, como essas: “Quando acordar, eu me satisfarei com a tua semelhança” (Sl 17:15); “Guias-me com o teu conselho, e depois me receberás na glória” (Sl 73:24).

O Vencedor que canta

Jesus Cristo é o Vencedor que canta nos Salmos, o Filho (Sl 2:7), assentado a mão direita de Deus (Sl 110:1). Ele é ao mesmo tempo o homem justo que sobe ao monte do Senhor (Sl. 24:3–5) e o Rei da glória a quem são abertas as entradas eternas” (Sl. 24:7–10).

Quando Jesus cantou os Salmos da Páscoa no cenáculo com Simão Pedro, Tiago e João, Seu Pai ouviu e todo o céu escutou: “O Senhor é a minha força e o meu cântico; ele me salvou” (Sl. 118:14). O cântico de Moisés (Ex. 15:2) e dos profetas (Is. 12:12) se tornaram o cântico do Cordeiro. Mesmo o cântico dos anjos nos campos de Belém não se comparam ao cântico dAquele que levou sobre Si os nossos pecados.

Mas agora o Salvador ressurreto canta em glória. Ele é o suave salmista de Israel (2 Sm 23:1), o mestre de coro do céu. Ele não se envergonha de nos chamar de irmãos, mas canta no meio dos Seus santos congregados na Sião celestial e na terra onde dois ou três se reúnem em Seu nome. Louvado seja o Seu nome, o Cristo que canta na congregação canta um hino missionário entre os Gentios. Paulo nos lembra de que Jesus cumpriu a missão de Israel como o maior Ministro da circuncisão, “a fim de confirmar as promessas feitas aos pais, e para que os Gentios glorifiquem a Deus pela sua misericórdia.” Paulo, então, atribui a Jesus este verso dos Salmos: “Pelo que, ó Senhor, te louvarei entre as nações, e entoarei louvores ao teu nome” (Rm 15:9; Sl. 18:49).

Jesus canta entre as nações. Seu hino missionário é uma doxologia, convocando os Gentios a juntarem-se a Ele num cântico de louvor ao nome do Seu Pai.

No passado, o louvor estava centrado em Jerusalém, nas cortes da casa de Deus (Sl. 116:18, 19). O cantar do povo de Deus convocava todas as nações a louvar o Senhor de toda a terra, cuja salvação se via em Sião (Sl. 98:3, 4). Os profetas retratam as nações vindo para louvar a Deus na Sua Cidade (Is 2:2,3; Sf 3:9,10).

No Novo Testamento a direção missionária parece ser revertida. Jesus envia Seus discípulos de Jerusalém aos confins da terra (Mt. 28:18,19). Mas a doxologia das missões permanece. Jesus Cristo detém todo o poder, no céu e na terra. Ele sobe à Jerusalém celestial e convoca as nações para se juntarem a Ele no louvor ao Deus da salvação (Hb. 12:22–29).

Nosso evangelismo deve ser doxológico. Nós somos a nação santa de Deus, um povo da possessão do próprio Deus, para que “anuncieis as grandezas daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (1 Pe 2:9). Quando cantamos da maravilhosa graça de Deus entre as nações, o próprio Jesus lidera o nosso louvor. Nós não testemunhamos na defensiva ou com orgulho, mas na alegria do culto. Como os pastores que viram o Salvador, nós seguimos o nosso caminho glorificando e louvando a Deus.

Você não precisa cantarolar um hino para testemunhar a um vizinho, mas se o seu coração canta louvores, então o seu testemunho soará verdadeiro. E uma igreja que louva, cheia do cantar do Evangelho, é uma igreja na qual visitantes dirão, “Deus está verdadeiramente entre vós!” (1 Cor 14:25).

Pelo lamento da Sua oração e peã (pæan) do Seu louvor, Jesus Cristo transforma nosso suspiro em cântico e nos dá a vestimenta de louvor para cobrir o espírito de aflição.

Venha para o festival de música do céu; venha para Jesus, que faz a língua do mudo cantar de alegria (Is. 35:6). ALELUIA!

Por: Edmund Clowney. Copyright © 2014 15 Degrees South. Original: The Singing Savior

Tradução: Bruno Pasqualotto Cavalar. Revisão: Felipe Felix e Talyta Kim. © 2017 Basileia. Original: O Salvador que canta