Capa do novo single.

Olá pessoal! Recentemente o Filipe, responsável pelo Cante as Escrituras, me pediu para escrever um texto sobre os novos singles do Projeto Sola. Estamos lançando um single a cada mês, até Outubro, e então iremos comemorar com grande alegria os 500 anos da Reforma Protesta, marcados quando Matinho Lutero postou suas 95 teses na porta da catedral de Wittenberg. O ano de 1517 é um marco para todo o movimento não só gerado por Lutero, mas também por tantos outros no decorrer daquele século. Estou “abrasileirando” os nomes: Guilherme Farel, João Calvino, Filipe Melanchton, Teodoro Beza, Martin Bucer, e muitos outros. Pessoas que se levantaram por conta de diversos incômodos em relação à dominação romanista e a necessidade da volta às Escrituras, à história da igreja, e ao verdadeiro evangelho.

A música sempre foi uma forma de se conseguir ensinar conceitos que de outros jeitos não se consegue assimilar tão facilmente. A poesia cantada tem valores pedagógicos maravilhosos. Não vou discorrer fortemente sobre isso aqui (talvez em algum texto para o Cante as Escrituras quem sabe), mas todos nós podemos entender que uma música tem um poder incrível de fazer a gente decorar conceitos. Já experimentamos isso na escola, quando temos que decorar as fórmulas de física para o vestibular, ou quando os nomes dos filos das plantas em biologia precisam ser assimilados para a prova. A música, em resumo, tem um poder pedagógico alto. Assim acreditamos que, como igreja, também podemos servir e ensinar com canções bíblicas, teológicas e pedagógicas.

No último dia 10 de Julho, lançamos uma canção com o título de “Das Trevas à Luz”. Por si só o título é muito sugestivo. Lembrando o texto de 1 Pedro 2.9, e também uma porção de conceitos joaninos (Evangelho de João e cartas de João) sobre o poder de Cristo e aquilo que sabemos sobre Ele. Porém, antes de irmos plenamente nos conceitos usados para compor a poesia da música, precisamos adentrar em uma conclusão que Calvino tirou durante sua vida em Genebra. É uma grande alegria saber também que João Calvino nasceu no dia 10 de Julho, o mesmo dia que lançamos “Das Trevas à Luz”.

Das Trevas à Luz

João Calvino pregava na Catedral de St. Peters em Genebra duas vezes aos Domingos, e duas vezes todos os dias em semanas alternadas. Naquele tempo a reforma estava à todo vapor, e ali o próprio Calvino vivia para produzir teologia biblicamente centrada, sermões bíblicos e focados em ensinar o evangelho, o ensinamento dos apóstolos e a graça de Cristo; fatores que estavam em escuridão devido à presença e dominação da igreja romana. Calvino devotou sua vida à realizar sermões expositivos sobre diversos livros bíblicos, sobre Isaías, Jó, epístolas paulinas e muitos outros. Sua obra é extremamente extensa. Calvino dedicou sua vida para trazer conhecimento bíblico à uma comunidade que vivia nas trevas em relação às Escrituras.

Genebra experimentou algo incrível durante os anos da reforma. Saúde pública, o engajamento da sociedade, segurança, política, economia. Onde antes se via uma cidade difícil, imoral e confusa, se estabeleceu uma luz para toda a cidade. Um povo que precisava de esperança, pois vivia em sofrimento. Quando se lê a biografia de João Calvino, pode se perceber sua teologia pública e a sua motivação em romper as trevas, trazendo o conhecimento da verdadeira luz, Jesus Cristo à todos.

tenebras lux – A luz que vence as trevas.

E foi o que ele decidiu colocar como “moto” na Catedral de St. Peters. A grande frase em latim, que seria a lembrança do que foi feito, e a lembrança do verdadeiro evangelho. Não apenas para a igreja e sua reforma, mas para a reforma proposta para toda a sociedade. A luz que vence as trevas; todo o tipo de trevas. Não apenas a escuridão teológica, mas também moral, social, econômica, política, cultural e relacional. A luz, vinda do verdadeiro Cristo, vence. A experiência vivida por Calvino, impulsionada pela leitura da Palavra de Deus e o movimento de Seu Espírito naquela cidade, nos ensinam muito hoje sobre o que podemos e devemos fazer inspirados pela Palavra.

As afirmações de Jesus Cristo

Na literatura joanina encontramos um postulado teológico. O evangelho de João é o mais tardio a ser escrito, e a sua intenção passa para além de apenas reproduzir a história de Jesus, mas também para uma proposta pedagógica e talvez apologética. Jesus Cristo seria explicado como sendo a verdadeira Palavra (ou o Verbo), o Logos de Deus. Também é apresentado como sendo a Luz dos Homens, logo no primeiro capítulo.

No primeiro capítulo o Verbo (ou a Palavra) é apresentado. No prólogo (1.1-18), o Verbo estava com Deus e ERA Deus. E ainda o destaque para o versículo 14, sendo que o “verbo se tornou carne e sangue, e veio viver perto de nós.” (A Mensagem), ou ainda “a Palavra se tornou ser humano, carne e osso, e habitou entre nós” (NVT). O prólogo do relato sustenta a tese do autor, provar através da história de Jesus que ele era o Verbo, e que esse mesmo Verbo era e é o Deus Eterno, retratado no Antigo Testamento como “Yahweh” o “EU SOU”, em Êxodo 3.14. A expressão grega, encontrada na septuaginta (tradução grega do Antigo Testamento) retratada aqui é “εγω ειμι” (ego eimi), sendo essa traduzida do hebraico הָיָה , cujo significado é “eu existo” ou como traduzido na maioria das versões “EU SOU”. A mesma palavra hebraica pode ser encontrada ao longo do Antigo Testamento sendo traduzida como “SENHOR” proveniente do hebraico “Adonai”, uma pronúncia para o tetragrama YHVH (yod, hed, vav, hed), de onde tiramos a palavra “yahweh”. A pronúncia foi mudada para “adonai”, pois os judeus acreditavam que o nome de Deus era tão santo que não deveria ser pronunciado. Adicionaram vogais ao tetragrama, para ser pronunciado “adonai” ao invés de “yahweh” ou “YHVH” como o nome de Deus.

Assim, as observações aqui se referirem ao termo “EU SOU”, encontrado sete vezes ao longo do evangelho de João. Um estudo aprimorado deste termo e de cada vez que ele aparece no livro, permitem-nos relacionar todo o livro entre si e a teologia por trás do evangelho de João. Podemos assim mergulhar ainda mais na pessoa de Cristo, em quem ele afirmava ser. Saber sobre o que Cristo afirma acerca de si mesmo deve transformar e balizar a nossa teologia.

As sete afirmações ou declarações de Jesus como “egó eimi” (eu sou) no livro de João são:

  1. Eu sou o pão da vida (6.35).
  2. Eu sou a luz do mundo (8.12).
  3. Eu sou a porta (10.7,9).
  4. Eu sou o bom pastor (10.11,14).
  5. Eu sou a ressurreição e a vida (11.25).
  6. Eu sou o caminho, a verdade e a vida (14.6).
  7. Eu sou a videira verdadeira (15.1,5).

Cada uma delas traz um ensinamento específico sobre Cristo na defesa de quem ele é. Ladd (2003 p.202) diz que “todas essas declarações são reflexos de uma autoconsciência absoluta” mostrando que Jesus, mais do que saber qual era a sua missão, tinha plena convicção e consciência de quem era. Assim temos um Cristo autoconsciente que vem ao mundo para inaugurar e proclamar o Reino. O Reino que tem o seu início de proclamação com o Verbo se fazendo carne, o mesmo que gerou todas as coisas, estava ao lado de Deus na criação, e partilha da mesma essência que o Criador. “O Verbo estava com Deus; o Verbo era Deus.” (ARA).

Talvez um dia tenhamos tempo e espaço para discutir cada uma dessas afirmações especificamente. No entanto, as Escrituras ainda ressaltam pontos que cremos que sejam firmemente conectados com a proposta apologética de João na defesa de Cristo e também com o ensinamento sobre quem Jesus é.

O Servo Sofredor

Embora a expressão “Servo Sofredor” não seja uma expressão bíblica, ou seja, não esteja no texto bíblico em si, é uma expressão que consegue explicar uma porção de trechos relacionados às características do Messias de Deus. Em textos que podemos ler as características do servo sofredor se ressaltam e tudo isso fica explícito, como em Filipenses 2.5-11 e Isaías 52.13-15. Jesus Cristo se mostra como o verdadeiro Messias de Deus, apesar de muitos outros personagens bíblicos terem características similares. Jesus, apontado como o Messias, que é o servo sofredor. A ideia do servo que escolheu sofrer em favor de seu povo é sim uma forte ideia bíblica, e tem respaldo nas Escrituras.

Uma Análise da Música

Se nós agora, em um modo de análise, referenciarmos a letra da música “Das Trevas à Luz”, é necessário que se faça inicialmente à luz do próprio evangelho de João. A primeira estrofe segue completamente nas afirmações de Cristo acerca de si mesmo:

O bom pastor, o pão da vida
A porta pra entrar
Ressurreição, videira real
Caminho, Verdade

Passamos agora para os pontos faltantes das afirmações (Vida e Luz), que aparecem tanto no pré-refrão quanto no refrão e são as pontes usadas na própria literatura bíblica.

A vida se manifestou, como um de nós se fez
A si mesmo esvaziou, o seu sangue derramou

Colocando aqui alguns conceitos como o Cristo que abre mão de si mesmo e se derrama em favor dos homens (Filipenses 2.5-11). E uma ponte com a conceituação de 1 João 1.2 como próprio paralelo com o evangelho de João. “A vida se manifestou; nós a vimos e dela testemunhamos, e proclamamos a vocês a vida eterna, que estava com o Pai e nos foi manifestada.” (NVI)

O Deus aqui, o Verbo que se encarnou
A glória do Pai
O começo, Primeiro da Criação
E o sustento, até o fim

Chegamos agora na segunda estrofe, alguns conceitos amarrados sobre tudo isso. Do próprio primeiro capítulo de João (Deus que habitou entre nós, Verbo que se encarnou, glória do Pai), e também de Colossenses 1 (O começo, Primeiro ou Primogênito da Criação, Sustento de todas as coisas).

]Como a “coroa” de cada música é o refrão, agora se encontrarão os termos na nossa análise que cremos que sejam aqueles que mais se conectam e ajudam a gente a explicar a pessoa de Cristo, e toda a nossa “cristologia”.

Servo sofredor, a luz do mundo
Promessa viva que se cumpriu
Palavra que nos leva
Das trevas à luz
A escuridão não o venceu

O refrão amarra todas as coisas apresentadas e produz em nós um entendimento de quem Jesus Cristo é. O servo sofredor, conceito amplamente encontrado na história bíblica. A promessa que se cumpre, não só como Messias prometido nas profecias, mas como aquele que cumpre a Lei (Mateus 5.17, Romanos 10.4), sendo assim a Palavra sob a qual estamos fundamentados (2 Pedro 1.12-21), e aí permite que sejamos levados Das Trevas à Luz (1 Pedro 2.9 e Colossenses 1.13), concluindo que jamais as trevas vencerão a luz, pois de fato “as trevas não o derrotaram” (João 1.5).

Um Desejo Final

A intenção do Projeto Sola, como causa para a Igreja de Jesus Cristo no mundo, é que possamos de alguma maneira edificar a igreja com canções bíblicas e pedagógicas. Na nossa vida procuramos produzir isso, vivendo o discipulado de Cristo, e de alguma maneira Deus tem nos permitido escrever canções que também sejam sobre a Sua Palavra. Este propósito tem se tornado importante em nossas vidas, amigos, ministério e família.

Deus tem nos dado oportunidades, desejos e sonhos. Caminhando em sua Luz, sempre possamos encontrar descanso na graça do Eterno. Que cada canção possa reverberar no íntimo do nosso ser, e usada pelo espírito possa nos auxiliar na compreensão de quem Deus é e de quem nós somos.

Que outras referências bíblicas vocês conseguem encontrar e ligar com a letra dessa canção? Como será que “Das Trevas à Luz” tem te ajudado a compreender as escrituras, e ao ler as escrituras ter uma compreensão maior da pessoa de Jesus Cristo? A minha oração é que sempre possamos fazer isso, refletindo a glória de Cristo, e com humildade servir a igreja dEle. Que Jesus Cristo, enviado pelo Pai, possa habitar ricamente não só no nosso conhecimento teológico, mas na nossa vivência diária, ocupando todo o nosso coração, e que o seu Espírito nos console, cure e auxilie no caminho, pois sua Luz já venceu a escuridão.

“Das Trevas à Luz”
Composição:
Guilherme Iamarino
Produção: Guilherme Andrade
Projeto Sola é: Guilherme Andrade & Guilherme Iamarino
Disponível em todas as redes de streaming e lojas online (Clique aqui para ouvir no Spotify).

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REFERÊNCIAS:

MICKELSON, J. K. , Enhanced Strong´s Greek and Hebrew dictionaries,
LADD, G. E. Teologia do Novo Testamento, Ed. Revisada. São Paulo: Editora Hagnos, 2003.

Por: Guilherme Iamarino. Copyright © 2017 Cante as Escrituras. Todos os direitos reservados. Website: www.CanteAsEscrituras.com.br. Original: Das Trevas à Luz | Indicação. Revisor: Filipe Castelo Branco.