O papel do cantar na vida da igreja

O papel do cantar na vida da igreja

O cristianismo é uma fé cantante. Esta é uma das principais características pelas quais os seguidores de Jesus são conhecidos, tanto através dos tempos quanto agora em todo o mundo. Enquanto a proporção do canto tem variado ao longo do tempo e de lugar para lugar, a maioria das igrejas hoje dedica cerca de um terço do tempo de seu encontro para o canto congregacional e investe uma quantidade considerável de tempo, dinheiro, esforço e energia para o lado musical de vida da igreja.

Mas por que cantar? O que é que o nosso canto realiza? Quais efeitos ele cumpre? Segundo as Escrituras, Deus tanto criou quanto nos chamou para cantar por três razões principais: para nos ajudar a louvar, para nos ajudar a orar, e para nos ajudar a proclamar. Vejamos cada uma dessas razões.

1. Cantar nos ajuda a louvar

Não há como escapar do fato de que o canto é uma forma vital de louvor. Muitas Escrituras (particularmente os salmos) confirmam isto. Não só elas ligam o louvor diretamente com o canto, mas elas também frequentemente falam das dimensões verticais e horizontais de louvor, adoração, e declaração, praticamente ao mesmo tempo. Considere, por exemplo, os quatro versos de abertura do Salmo 96:

Cantai ao SENHOR um cântico novo, cantai ao SENHOR, todas as terras.

Cantai ao SENHOR, bendizei o Seu nome; proclamai a sua salvação, dia após dia.

Anunciai entre as nações a sua glória, entre todos os povos, as suas maravilhas!

Porque grande é o SENHOR, e mui digno de louvor, temível mais que todos os deuses.

Enquanto louvar não se reduz a cantar, o ponto deste e de outros salmos não poderia ser mais claro. Cantamos ao Senhor, bendizendo o seu nome, e nós cantamos do Senhor, declarando a sua glória. E, é claro que, muitas vezes (se não sempre) fazemos as duas coisas ao mesmo tempo. Porque até quando estamos cantando sobre o Senhor para os outros, ele está presente para receber o seu louvor. A importância de cantar louvores de Deus é evidente a partir do número de vezes que é ordenado nas Escrituras (por exemplo, Ex 15.21; Sl 147.1, 7; 149.1, 5; Sf 3.14; Zc 2.10; Tg 5.13). É certo que a maioria dessas exortações é encontrada no Antigo Testamento, particularmente os Salmos. Mas, dado que o apóstolo Paulo espera e exorta os cristãos a cantar os salmos (Ef 5.19; Cl 3.16), esses mandamentos têm claramente relevância permanente.

Tais mandamentos são necessários, porque o louvor sincero nem sempre é fácil para o povo de Deus. Na verdade, existe uma variedade de forças posicionadas contra nós (celestiais e terrestres, externas e internas), que procuram nos desviar de dar o louvor devido a Deus, que é seu por direito e deve ser dado a ele em todas as circunstâncias, não só com o nosso viver, mas também com os nossos lábios; não apenas no discurso, mas também na música. Então, a menos que estejamos alertas para esse perigo, é muito possível roubar de Deus o seu louvor, talvez porque tememos parecer tolos, ou tememos o que os outros possam pensar de nós, ou pensamos na nossa voz. O resultado de ser governado por esses medos é que temos a tendência de “ficar de boa”, amordaçar a nossa gratidão, conter nosso entusiasmo, e (talvez) até mesmo não se identificar com as palavras que estamos cantando.

Claro, o antídoto não é ignorar aqueles que nos rodeiam pouco nos preocupando com como os afetamos. Na verdade, é da vontade de Deus que olhemos para os outros e esforçemo-nos para adorá-lo apenas em formas que os edificam (1Co 14.19). Mas a preocupação cristã com o meu vizinho está a um milhão de milhas de distância de um medo servil do homem, um medo que é em última análise, idólatra e que serve a mim, não que honra a Deus e serve ao outro. Assim, dado que é o propósito de Deus devermos louvá-lo “de todo o coração” (Sl 9.1; 86.12; 111.1; 138.1; Ef 5.19), é imperativo que nós lembremos a nós mesmos e uns aos outros regularmente que Deus realmente merece nosso louvor (Sl 7.17; 18.3; 147.1), que ele repetidamente exige nosso louvor (por exemplo, Sl 47), e que ele deseja profundamente o nosso louvor.

Esses lembretes são necessários para assegurar que o Deus que reteve nada de nós, nem mesmo o seu único Filho, receba mais do que os restos de nossa atenção e as sobras de nossos afetos. Porque Ele merece, demanda e deseja o nosso louvor de todo o nosso coração, é nosso dever mais alto e nossa maior alegria dá-lo a ele.

2. Cantar ajuda-nos a orar

Talvez não tenha passado pelas nossas cabeças antes, mas cantar é (ou pelo menos pode ser) uma forma de oração. O livro de Salmos, mais uma vez, é o nosso principal exemplo, já que uma grande proporção dos salmos são, ou contêm, orações (por exemplo, Sl 3-8, 9-10, 12-13, 16-18). E se há uma coisa que sabemos sobre a forma como os salmos funcionavam na vida do povo de Israel, é que muitas dessas orações foram cantadas, como, aliás, foram feitas para ser. Além disso, como já notamos, elas também foram cantadas pelas igrejas do Novo Testamento (Ef 5.19; Cl 3.16; Tg 5.13).

Isso significa, então, que exortações para cantar salmos incluem mandamentos para cantar orações. O grande valor de cantar nossas orações é que a atividade de cantar nos ajuda a nos envolver com as dimensões emocionais das verdades que estamos dizendo, ou as petições que estamos orando. Em outras palavras, o canto desempenha um papel fundamental para nos ajudar a preencher a lacuna entre os aspectos cognitivos e afetivos da nossa humanidade e, como muitos dos salmos de lamento ilustram, para nos ajudar a processar a nossa dor emocional e assim trazer-nos a um ponto de louvor (por exemplo, Sl 3-7).

Cantar os salmos, então, é uma coisa muito poderosa de se fazer. Não só estamos orando enquanto cantamos, estamos orando palavras divinamente inspiradas. Cantar estas palavras nos ajuda a engajar e expressar não apenas as dimensões conceituais das verdades que estamos articulando, mas as suas dimensões emocionais também.

Mas, é claro, não temos de nos restringir apenas a cantar e orar os salmos. Não só existem outras canções bíblicas (e muitas outras partes da Bíblia que pode ser cantadas como orações), mas as próprias Escrituras não nos restringem a cantar e orar somente a Escritura. Desde que estejamos cantando e orando segundo a vontade de Deus (como revelada nas Escrituras), estamos em terra firme. Portanto, devemos nos sentir livres para extrair do rico patrimônio histórico de recursos musicais e litúrgicos desenvolvidos por gerações anteriores para nos ajudar em nossas orações. Isto, naturalmente, inclui muitas traduções parafrásticas e versões métricas dos salmos, bem como uma infinidade de hinários indo até mesmo a Isaac Watts.

Quando estamos cantando também estamos orando, quer percebamos quer não. Estamos pedindo coisas a Deus na música, tanto pessoal como corporativamente. No entanto, é claramente bom para nós estarmos cientes do que estamos fazendo e do que estamos dizendo, para orar e cantar com nossas mentes totalmente engajadas (1Co 14.15). Portanto, não se surpreenda se no próximo Domingo o seu líder de louvor introduzir uma canção, dizendo: “Levantemos nossas vozes juntas em oração enquanto cantamos essa próxima música,” pois muitas vezes é exatamente isso que estamos fazendo.

3. Cantar nos ajuda a proclamar

Além de ser uma forma de louvar e uma maneira de orar, cantar é também uma forma de proclamar. Nós tocamos neste ponto anteriormente no que diz respeito à dimensão horizontal de louvor. Meu foco aqui, no entanto, é no cantar como uma forma de edificação mútua. Pois as Escrituras revelam que a palavra vivificante de Cristo é ministrada dentre o povo de Deus não apenas pela leitura da Bíblia e pregação bíblica, mas também por cantar “salmos, hinos e cânticos espirituais” (Cl 3.16).

Evidentemente, isso não significa que a palavra cantada deve eclipsar a palavra falada, ou que o canto deve substituir a leitura pública da Escritura e a pregação e o ensino (1Tm 4.13). Nem Jesus nem os apóstolos pregaram o Evangelho cantando-o. Portanto, a palavra cantada não rivaliza com a palavra falada no ministério de pregação da igreja, mas é projetada para funcionar como sua serva e complemento.

Não obstante, o canto da Palavra de Deus (desde que seja a Palavra de Deus sendo cantada) é extremamente importante e uma forma excepcionalmente poderosa de “ministério da Palavra.” Este fato nem sempre tem sido adequadamente apreciado. De fato, alguns têm considerado o canto congregacional como pouco mais do que uma maneira de esquentar as pessoas para que eles possam, em seguida, ouvir mais atentamente a leitura e pregação da Escritura.

Esta não foi a visão do apóstolo Paulo. Ele enfatizou fortemente a função de ensino do canto congregacional. Porque além de louvar e orar, quando cantamos juntos, nós estamos instruindo e exortando uns aos outros. Isto também é claro em Efésios 5.19, onde Paulo diz para falarmos “entre vós com salmos … hinos e cânticos espirituais” (cf. Cl 3.15-17).

Tal afirmação certamente torna o canto essencial para a vida espiritual e saúde da igreja. Longe de ser um exercício de alongamento das pernas antes e depois do sermão, é na verdade parte do sermão. É a parte onde todos nós pregamos, tanto para nós mesmos quanto uns aos outros. E o fato é, e é um fato humilhante para aqueles de nós que são pregadores, que as canções que cantamos são frequentemente lembradas por muito tempo depois de nossos sermões serem esquecidos.

Por: Rob Smith. Copyright © 2017 The Gospel Coalition. Fonte: The Role of Singing in the Life of the Church

Original: O papel do cantar na vida da igreja. © 2017 Cante as Escrituras | Coalizão pelo Evangelho. Todos os direitos reservados. Website: CanteAsEscrituras.com.br. Tradução: Guilherme Cordeiro.

Sobre o Autor

Rob Smith

Rob Smith passou 21 anos no ministério pastoral e de música em Saint Ives, Mosman, e agora atua na Catedral de Saint Andrew. Ele também tem um ministério itinerante de pregação e música a nível local, nacional e internacional. Ele começou como professor em tempo parcial de teologia e ministério de música na Sydney Missionary Bible College em 2002. Ele é casado com Claire, e eles têm um filho adulto. Rob tem bacharel e mestrado em Teologia pelo Moore Theological College.

comentário(s)