Este ano marca o 500º Aniversário da Reforma Protestante, portanto menções a Martinho Lutero, João Calvino e outros reformadores estão frequentemente sendo feitas. Mas quanto mais mencionamos o legado teológico destes homens, mais as pessoas se surpreendem em aprender o quão diferente eram as opiniões deles se comparados ao evangelicalismo de hoje.

Um exemplo disso é Calvino no que diz respeito à música para o culto. O reformador de Genebra restringiu os cânticos congregacionais em Salmos, algumas passagens bíblicas e o credo apostólico. Ele proibiu instrumentos musicais no louvor congregacional, dizendo que o uso desses elementos fazia parte da lei cerimonial dada a Israel. Se Calvino visitasse alguma programação evangélica atual, é possível que ele não permanecesse lá por muito tempo a fim de fugir do estridente som da guitarra e dos tambores da bateria.

Os evangélicos modernos podem aprender alguma coisa com esse francês do século XVI cujas opiniões sobre a música parecem tão extremas em nossos dias? Como nossas bandas de rock, indie, novas composições, uso de recursos multimídia como grandes luzes durante os períodos de música no culto, se relacionam com a teologia de Calvino no que se diz respeito à adoração em comunidade?

Mesmo se não adotarmos todas as conclusões de Calvino, sua teologia musical é fonte atemporal de instruções para nós. Enquanto preparamos nossos corações para cantar louvores a Deus com seu povo, aqui estão três de suas ideias que merecem uma consideração especial.

A música pode nos conduzir a Idolatria

Calvino entendeu que “nossa natureza se inclina para a idolatria” (Institutas, 1.11.13). O coração de cada pessoa é “uma fábrica perpétua de ídolos” (1.11.7). “Nossa natureza nos atrai e nos induz a procurar toda sorte de alegria louca e depravada” (“Prefácio ao Saltério” em “Escritos de Paixão Pastoral”, 95). Calvino notou como a música pode facilmente conduzir nossas mentes e corações para a idolatria. A música, disse ele, “tem um poder secreto e incrível para despertar os corações de uma maneira ou de outra” (“Prefácio ao Saltério”, 95).

Calvino estava certo. Podemos nos apaixonar pelas muitas emoções ao cantar ao invés de apreciar a grandeza de nosso Salvador. Podemos nos maravilhar mais com as habilidades dos músicos do que com a majestade de nosso Criador. Muito sutilmente, podemos começar a deliciar-nos mais no louvor que oferecemos a Deus do que no próprio Deus.

A guerra de Calvino contra qualquer indício de idolatria nos chama a examinar nossos próprios corações. Por que cantamos no Domingo de manhã? O que esperamos ganhar da igreja? Encontro minha alegria em Jesus e seu evangelho, ou meramente em uma experiência emocional? Devemos nos arrepender de cantar por mero conforto e autossatisfação, e buscar as maiores alegrias que têm sua fonte somente em Deus.

A música pode nos inflamar para Deus

Calvino era cauteloso com a idolatria, mas não era desprovido de alegria. Ele optou por uma expressão musical simples na congregação, não porque se opunha à arte e à beleza, mas porque respeitava o poder da música como uma força dada por Deus para o bem.

Sempre consciente da “Insensibilidade” e “Ingratidão” de nossos corações, ele sabia que precisávamos de um “estímulo” para abanar as chamas da afeição piedosa. (Comentário sobre o Livro dos Salmos, 33). “A canção tem grande força e vigor para despertar e inflamar o coração das pessoas para invocar e louvar a Deus com um zelo mais veemente e ardente” (“Prefácio ao Saltério”, 94).

Tal exceção deve soar como um refrigério para nós. Frequentemente, mesmo que de forma inconsciente, agimos de acordo com nossos sentimentos, “Estou muito feliz, portanto louvarei ao Senhor”, Calvino gostaria que respondêssemos “Louvarei ao Senhor, para que eu seja verdadeiramente feliz nele”.

Irmãos e irmãs enfrentando perseguição, dor, dúvida e depressão podem não sentir vontade de cantar nas manhãs de Domingo. Mas Calvino nos lembra de que Deus nos deu a música para agitar nossos sentimentos. A canção congregacional conecta os fios da verdade de Deus aos nossos corações esgotados e nos revive em épocas de frieza.

Eu sempre encorajo os santos a louvar, mesmo se sua voz estiver fraca. Cantar com fé é uma declaração de verdade, mas também é um apelo para que o Espírito torne a verdade mais viva em nossos corações.

Deus nos deu canções para cantarmos

Calvino não só apreciava a força emocionante da música. Ele também ansiava para que sua congregação cantasse o melhor conteúdo lírico. Para isso, ele se voltou para o hinário inspirado na Bíblia: os Salmos. O cristão que dominar os Salmos, ensinou Calvino, terá dominado a “doutrina celestial” (“Prefácio ao Comentário sobre os Salmos”, 56).

Calvino chamou o Saltério de “uma anatomia de todas as partes da alma” porque retrata o homem justo dirigindo-se a Deus em todo estado emocional possível (“Prefácio ao Comentário sobre os Salmos”, 56). Calvino argumentou que os Salmos “moldam nossa vida no que diz respeito a santidade, piedade e retidão” e ” principalmente nos treinam e ensinam a carregar a cruz” (“Prefácio ao Comentário sobre os Salmos”).

Dado o seu elevado conhecimento dos Salmos, não é nenhuma surpresa que Calvino tenha alavancado a música para fazer que sua congregação fosse saturada de cânticos contendo Salmos. Cada canção era um dispositivo para embutir a teologia dos Salmos nos corações dos crentes. As músicas que memorizamos nos dão uma base teológica igualmente robusta? Nossas orações e louvores trazem a fragrância da rica teologia e a essência emocional dos Salmos?

Impulsione sua Alegria

Como qualquer bom presente vindo do alto, a música (até mesmo a música da igreja) pode se tornar um ídolo se valorizarmos o presente mais do que o doador. A beleza dos dons dados por Deus aponta para a gloriosa misericórdia e graça de Deus para os pecadores. Nossas canções devem agitar nossos corações para que louvemos em todas as estações da vida, assim como os Salmos tão lindamente expressam.

A música nas manhãs de Domingo existe para despertar nossos corações da insensibilidade de uma semana cheia e impulsionar nossa alegria em Jesus. Em todo som emitido pelos santos, não esqueça o que realmente importa. As melodias de nossa música, o volume de nossas vozes e o poder de nosso louvor significarão muito pouco a menos que nossas canções se elevem a Deus com alegria.

Por: Matt Merker. © Desiring God. Website: desiringgod.org . Traduzido com permissão. Fonte: Jumpstart Your Heart in Worship.

Original: Impulsione seu coração em adoração. © Cante as Escrituras | Ministério Fiel. Website: MinisterioFiel.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Felipe Filguieiras. Revisão: Renata M Gandolfo.