Algumas ideias que foram combatidas na Reforma Protestante passam desapercebidas por nós hoje, como na música na hora do culto público, por exemplo.

O canto gregoriano, o estilo musical oficial das missas da igreja medieval, era em latim, e por isso o povo não podia cantar, mas apenas apreciar através da contemplação o que era cantado. O povo sabia que o que estava sendo cantado era para Deus (ou pelo menos deveria ser), já que estavam numa missa, um lugar de suposta celebração e comunhão, que é isso o que o termo “missa” significa, mas só podiam contemplar, só podiam assistir.

Para ilustrar, não é muito diferente de quando você, não sabendo nada de inglês, escuta um louvor em inglês, e que supõe ser o que ouve um louvor por conhecer algumas palavrinhas, como “God”, “Christ” e “Gospel”. Mas, no final, por não entender a língua inglesa, você só ouve e se emociona com os belos solos de guitarra, as vozes em variados tons, a batida da bateria e só. No final, você só contempla.

Do mesmo jeito vem acontecido hoje em muitas igrejas espalhadas pelo mundo, não só nas igrejas contemporâneas, como também nas mais tradicionais, até mesmo entre aquelas que se autodenominam igrejas reformadas. O erro começa desde quando de forma inconsciente dizemos que vamos “assistir o culto”, refletindo aqueles que nada entendiam na época da igreja medieval e só podiam assistir.

Nós não assistimos o culto, mas cultuamos. Nós não contemplamos o culto, mas contemplamos a Santíssima Trindade através do culto que prestamos de forma comunitária, congregacional. Porém, não é difícil de entender esta forma de dizer da maioria, já que, infelizmente, muitas vez nós só conseguimos assistir e contemplar. Isso acontece quando, por exemplo, o grupo responsável pela música da igreja, ao dirigirem os louvores, os fazem de um modo complexo, de um jeito que a congregação não consiga acompanhar. O tom muito alto que só alguns cantam, a melodia muito acelerada que só os mais jovens conseguem acompanhar, letras complicadas e arcaicas que só os mais velhos entendem, entre outras coisas. Notamos assim, que isso não é muito diferente do canto gregoriano onde só alguns participavam. O canto gregoriano era uma espécie de espetáculo dentro do culto, e não se difere muito dos shows que temos hoje em muitas igrejas no momento do louvor musical, que agem como os intermediadores da igreja medieval, que, por só alguns deles saberem o que estavam cantando, achavam estar representando o povo através do seu canto, esquecendo do sacerdócio universal do povo de Deus.

A adoração levada pela emoção e contemplação na adoração contemporânea reflete muito do que já foi combatido na época da Reforma Protestante. Não vamos ao culto para assistir espetáculos das bandas de louvor, mas para assistir o próprio Deus através dos louvores que entoamos. O grupo de música da igreja deve servir de auxilio para o canto congregacional, e não fazer shows na hora do culto.

É Cristo que deve ser contemplado, e não qualquer outro elemento do culto comunitário.

Por: Filipe Castelo Branco. Copyright © 2017 Cante as Escrituras. Website: CanteAsEscrituras.com.br. Todos os direitos reservados. Original: Nós não assistimos o culto, mas prestamos culto!