Esse texto fará uma breve explanação em cima de Malaquias 1. Estou expondo este livro em minha congregação e aqui adaptei a primeira mensagem para compartilhar os ensinamentos que nos esbofeteiam para o nosso próprio bem. E louvado seja Deus quando nos admoesta com severidade.

O nome de Malaquias significa “Meu Mensageiro”. Ele foi o último profeta a falar com Israel antes de Deus ficar “em silêncio” por cerca de 400 anos, até João Batista ser levantado para ser precursor do Cristo. Pouco sabemos da vida do profeta e a datação do livro é imprecisa. Mas, é quase que consensual datar a profecia como tendo acontecido após o período de Esdras e Neemias. Portanto, afirmo que Malaquias é um profeta do período pós-exílico. Quando ele fala, da parte do SENHOR, o segundo templo já havia sido inaugurado e as atividades religiosas ligadas a ele estavam em pleno funcionamento. No entanto, Deus se mostra descontente com a religiosidade meramente formal do Seu povo, que continuava seguindo uma agenda de culto, todavia, não vivia de acordo com a Lei de Deus e tinha uma postura cínica até mesmo no exercício de sua religião.

A mensagem do profeta é de severa repreensão, todavia, necessária para trazer o povo ao arrependimento e fazê-lo adorar ao SENHOR com a glória que lhe é devida. O estilo do livro difere da composição de narrativa que costumeiramente era adotada pelos profetas. Malaquias possui uma estrutura de um diálogo. Deus fala através de seu mensageiro. O povo retruca. Deus fala novamente. Por conta desta estrutura, alguns comentaristas bíblicos fazem a comparação com um inquérito feito por um juiz diante de uma testemunha. Isso faz com que a imagem de um tribunal nos venha a mente. Sem dúvida, algo para levarmos em consideração ao expor este livro.

O que Malaquias tem a dizer ecoa nos ouvidos da moderna igreja brasileira. Precisamos estar atentos a este conteúdo e buscar ajuda do próprio SENHOR para que não venhamos adorá-lo de maneira displicente, causando-lhe enfado e desgosto. Durante a leitura desse texto, pergunte-se: Como está a minha adoração?

Nosso culto deve ser uma resposta ao amor de Deus

vv. 1-5 Deus levanta Malaquias para falar uma palavra pesada. O termo “palavra do SENHOR” pode ser traduzida por “sentença do SENHOR” ou até mesmo “peso” como trazem algumas versões. Vejamos que a palavra é contra o povo, por isso não deve ser algo fácil de digerir. A Escritura nos diz que se Deus é por nós ninguém será contra nós (Rm 8.31), mas do contrário também há verdade na sentença: Se Deus for contra nós… ai de nós! Mas Deus começa esta palavra pesada declarando que ama o Seu povo. E este amor é perpétuo: “eu sempre vos amei”. No entanto, o povo retruca e de maneira cínica pergunta: “De que maneira nos tens amado?”

Diante das dificuldades que assolam nossa vida, é comum que lamentemos nossa sorte e até nos queixemos para com o Senhor. É algo tão humano que Deus permite que façamos isso. O lamento, inclusive, é presente na Bíblia. Há um livro com esse nome e os salmos estão abarrotados dele. Todavia, o tipo de pergunta do povo revela um certo cinismo. Eles estavam num nível profundo de incredulidade e colocaram em xeque a aliança de Deus para com eles. É por isso que Deus começa sua sentença garantindo que os ama. Mesmo que Israel não reconheça o amor divino, Ele se faz presente na história daquele povo. A aliança foi feita com Abraão, seu antepassado. Dele veio Isaque, pai de Esaú e Jacó. Ali, nos dois irmãos, havia duas nações representadas (vide Gn 25.23), respectivamente: Edom e Israel. É comparando ambas as nações que o amor de Deus fica ainda mais evidente.

É verdade que Israel tinha sido levado em cativeiro. Jerusalém ficou desolada e o primeiro templo foi destruído pelas tropas de Nabucodonosor. Porém, Deus fez isto para repreender o seu povo por conta da sua constante idolatria e conduta imoral. Profetas como Jeremias e Ezequiel profetizaram sobre a ida para o cativeiro e também sobre o retorno de boa parte do povo do SENHOR. O objetivo de Deus não era de destruir o seu povo, mas restaurá-lo. Deus estava forjando em Israel um caráter de dependência e também lhes santificando. Em contrapartida, Edom fora aniquilada pelos nabateus. Aquele povo rival de Israel, descendentes de Esaú que negaram passagem quando Moisés conduzia os israelitas até a terra prometida (Nm 20.18) e até contribuíram com os babilônicos durante a tomada de Jerusalém (vide Obadias), tinham sido destruídos algum tempo depois do exílio e por mais que quisessem regressar a sua terra seriam frustrados pelo próprio SENHOR.

Vejam o contraste: Enquanto Israel tinha a promessa de restauração por estarem debaixo do amor de Deus, os edomitas tinham a promessa da aniquilação, pois Deus se aborrecia deles. Diante disso, cabia ao povo da aliança reconhecer a grandeza e o poderio do seu Senhor e Defensor (v.5). Mas em vez de ação de graças e devoção, veremos mais cinismo e frieza espiritual.

O culto que não se pauta na Palavra é desprezível

vv. 6-10 Deus não estava sendo honrado como Pai e Senhor daquele povo. Não tinha o afeto e nem o respeito que merecia ter da parte de seu povo. Diante do amor e da aliança perpétua que fez o SENHOR com o povo, recebeu em troca ingratidão. A forma de cultuar revelava a falta de estima e de temor dos habitantes de Jerusalém para com Deus. Um culto prestado de maneira irreverente, sem critérios e sem a observância dos preceitos que estavam estabelecidos na Lei. Era o nome do SENHOR que estava sendo desprezado. Diante desta acusação os sacerdotes fazem uma pergunta que soa como zombeteira: como temos desprezado o teu nome?

Os sacerdotes eram os responsáveis por conduzir a adoração no templo e deveriam certificar-se de que aquilo que era oferecido a Deus estava dentro do que havia sido estabelecido na Lei. O culto naquele contexto tinha como seu cerne as oferendas de animais e cereais. E no caso dos animais, estava claro que o primogênito e sem defeito seria aceito. Todo animal defeituoso, conforme a Lei, deveria ser rejeitado (Dt 15:21). Os princípios por detrás desta ordenança são: 1. Deus é Senhor de todos os nossos bens e 2. o culto a Deus deve nos custar algo. Mas ninguém parecia dar a mínima, e os animais impróprios eram sacrificados mesmo assim.

Deus retruca o cinismo dos sacerdotes apontando para a qualidade das ofertas. Ao adorarem ao SENHOR sem se preocupar com os termos, era o mesmo que dizer que a mesa dos sacrifícios, ou seja, o altar era desprezível. O povo errava ao cultuar quando em vez de ofertarem o seu melhor pegavam de seus rebanhos animais aleijados, doentes e quase mortos. Mas cabia aos sacerdotes acabar com essa insanidade e conduzir o povo a adoração adequada. Devolvendo a zombaria, Deus manda que peguem aqueles animais e ofereçam ao governador (representante do império persa na província de Jerusalém). Se, como o texto dá a entender, o governador recusaria, então porque o povo acha que Deus aceitaria tais animais de bom grado? Será que Deus tem que aceitar qualquer coisa que nos propomos a fazer e chamemos de culto? Definitivamente não! O aborrecimento do Senhor é tamanho que Ele deseja que o templo seja fechado por um sacerdote de coragem para que aquele tipo de culto não seja mais oferecido, trazendo desonra ao Seu santo nome.

Todo o desvio acontece quando a Lei é deixada de lado. Quando aqueles que deveriam pastorear o povo e alimentá-los com a Palavra do SENHOR dos Exércitos estão corrompidos, inevitavelmente o povo tropeçará por ignorância. O apóstolo Tiago já nos alertava que os mestres receberão mais duro juízo devido a sua imensa responsabilidade de conduzir a igreja de Deus (Tg 3:1). Atualmente vemos todo tipo de excesso e heresia no segmento evangélico e toda a culpa é dos pastores que abandonaram a Sã Doutrina e começaram a pregar crendices, sandices e cretinices por torpe ganância. Sempre quando acontecem cultos “tremendos”, “abençoados” e “poderosos”, segundo os seus frequentadores, Deus em Seu trono continua a perguntar: “Se eu sou senhor, onde está o meu temor? (Ml 1:6). Mas nós não queremos ouvir repreensão. Nada de palavras duras. Queremos bênçãos. Queremos tomar posse da vitória. Mas Deus está nos céus desejando que muitas de nossas igrejas (talvez a nossa?) fechem suas portas de uma vez por todas.

O distanciamento da Palavra é distanciamento do próprio Deus

vv. 11-14: Seguindo com seu discurso, o SENHOR fala que é grande entre todas as nações. Numa vindicação do futuro, Malaquias apresenta outros povos adorando à Deus corretamente, fazendo aquilo que Israel deveria fazer, mas desprezou. Assim faz o SENHOR para demonstrar seu poderio. Ele não é refém dos homens. Ele não ficará sem a devida veneração só porque os israelitas estão sendo negligentes. Na seara divina, aquele que negligencia seu trabalho será substituído. Mas o trabalho não parará. A adoração não cessará. Deus será adorado como deve e sua glória será manifesta por toda a sua criação. No verso 12 vemos a repetição de uma acusação. Malaquias, falando da parte de Deus, denuncia que todo o povo despreza o SENHOR com a sua impureza e desdém com o sagrado.

Mesmo diante da repreensão não há contrição. O povo não diz: “Perdão, meu Senhor. Restaura-me o fervor”. Ele diz: “Que canseira!”. O desprezo deles é tamanho que aqui ficamos sabendo que até animais roubados eram sacrificados no altar. O capítulo então termina com uma maldição direcionada a todo aquele que tendo condições de oferecer o animal adequado, sacrifica um impuro. Este, a quem o SENHOR chama de enganador terá o se quinhão no dia do juízo. Deus não terá piedade de quem o adora sem estar de acordo com sua Palavra. Um culto que não tem respaldo bíblico, nos afasta de Deus, um efeito contrário do que ele deveria gerar.

Não há como se esquecer do fim trágico de Uzá (vide 2 Sm 6.1-7). Carregando a Arca da Aliança num carro de boi, o que não era o recomendado. Tentou segurá-la quando esta ia caindo do carro. Ele foi imediatamente fulminado. Uzá pensou que sua mão pecaminosa era mais limpa que o chão. Ledo engano. Era tão mais suja que ao entrar em contato com algo santo acabou por matá-lo. Além disso, tudo começou com o descumprimento da forma correta de se levar a Arca – nos ombros dos sacerdotes. Atentem para isto: Tudo que é feito sem respaldo bíblico, mesmo sendo com a melhor das intenções, não terminará bem.

Conclusão

Malaquias é um livro que trata da espiritualidade como um todo, mas passa pelo culto prestado no templo como sendo exatamente um termômetro da espiritualidade de Israel. O culto não é algo insignificante. Ele demonstra a fé e a gratidão que temos no Senhor, nosso Deus. Não devemos esquecer que o culto não é sobre nós, é sobre e para Ele. O culto feito ao nosso bel-prazer, para nosso deleite, não é aceito por Deus. Ele só se compraz da adoração que O glorifica. Não sendo assim, Ele rejeita a nossa maneira de cultuar, por mais agradável que ela nos pareça.

Quando moldamos o culto segundo as nossas preferências, corremos o risco de contrair a ira divina sobre nossas cabeças. Se não obedecermos o que Deus predeterminou em sua Palavra, estaremos em apuros.

Olhando para o nosso contexto e igreja local: como é o nosso culto? Como tenho me portado? O que tenho oferecido? Olhando para nossa forma de cultuar na igreja, o que ela nos diz sobre a minha espiritualidade? A nossa perspectiva sobre Deus manifesta-se na nossa forma de cultuá-lo. Os israelitas haviam desconsiderado Seu senhorio e Seu amor. Eles tornaram o culto desprezível ao ponto do SENHOR desejar que os cultos fossem interrompidos. Oremos para que Deus não sinta o mesmo a cada Domingo, o dia que nos reunimos em Seu nome.

Finalizo com três questões simples para que você medite nelas e, em oração, procure respondê-las.

1. Reconheço que faço parte do povo amado de Deus e sou grato de saber que Seu amor não muda, devendo então retribuir o Seu amor me devotando a Ele com todo meu ser?

2. Tenho buscado oferecer o meu melhor nos cultos? Vou disposto a louvar com entusiasmo e faço de tudo para captar a mensagem da pregação – ciente de que ela é meu alimento espiritual da semana?

3. Será que estou tentando enganar a Deus ou a mim mesmo oferecendo algo impuro achando que é uma oferta aceitável diante do SENHOR?

Que o Senhor faça resplandecer sobre nós o Seu rosto!

Por: Thiago Oliveira © Cante as Escrituras. Website: CanteAsEscrituras.com.br. Todos os direitos reservados. Revisão: Filipe Castelo Branco. Original: O que Malaquias 1 nos ensina sobre o culto?