– Vá chamar seu marido – ele diz à mulher samaritana.

– Não tenho marido – responde ela.

– Você está certa – replica-lhe Jesus.

– Mas já teve cinco, e o homem com quem anda dormindo não é seu marido.

Jesus nessa conversa com a Samaritana deseja nos ensinar sobre adoração. Ela fica em choque com a revelação, e nós surpresos, o que uma mulher promiscua tem haver com adoração a Cristo.

A primeira lição que Jesus nos mostra nessa conversa é que, como disse John Piper, “adoração tem haver com vida real, com pessoas pecadoras, com um Deus Santo, e com um chamado ao desfrutar desse prazer nele.”

Esse discurso de Jesus com essa mulher é estarrecedor ainda mais quando se compreende o contexto da época. Por que ela estava sozinha? Porque ela se surpreende em Jesus lhe dirigir a palavra? Por que ela estava pegando água ao sol de meio dia?

As mulheres no 1º século iam juntas buscar água e sempre no final da tarde, essa mulher estava sozinha e em horário incomum por ter má reputação na cidade que vivia, afinal, para ela era comum dormir com vários homens.

O que Jesus Cristo faz com essa mulher? Ele fere seu coração ao revelar e expor seu pecado. E de pronto qual é a reação dela? Passa a falar sobre adoração, perceba:

–       Vejo que és profeta, nossos pais adoraram (PROSKUNEO -προσκυνέω– prostraram-se) neste monte.

–       Vós [Judeus] dizem que Jerusalém é o lugar onde se deve adorar.

–       Nem neste monte nem em Jerusalém adorarei ao Pai.

–       Virá à hora, e ela chegou, que os adoradores adorarão o Pai em Espírito e em Verdade porque são esses que o Pai procura.

Quando Cristo fere o coração dessa mulher ao invés dela caminhar na trilha do arrependimento ela traz à tona uma pergunta de cunho religioso, onde e como devemos adorar. Essa resposta talvez revele à fonte de onde ela tem embebido seu ser numa suposta saciedade, a água da religiosidade, afinal, sua vida estava em um caos.

Em resposta a essa questão, Jesus diz: “Vós adorais o que não conheceis” (João 4.22). Percebe que Jesus não retoma o assunto da imoralidade na vida daquela mulher, e por quê? Cristo, prefere caminhar na estrada que trata sobre adoração, pois, falar de adoração é falar sobre o coração.

Quando ele afirma que eles [Samaritanos] adoravam o que não conheciam, Jesus estava falando sobre a essência da adoração o coração. Ele estava mostrando que poderia existir adoração nos lábios, mas não no coração. É por isso que no texto Jesus diz: “…mas quem beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede; pelo contrário, a água que eu lhe der se tornará nele um fonte de água a jorrar para a vida eterna” (João 4.14)

Jesus se atém ao assunto posto em pauta pela própria samaritana porque todo ato externo que não é fruto de um coração sincero é adoração vã. Quando seus lábios louvam, mas seu coração não, o que Deus contempla não é adoração, mas hipocrisia.

E toda adoração é fruto de um coração que primeiramente foi por Deus ferido: “Feriste-me o coração com a Tua palavra e te amei (Agostinho)”. Essa mulher apenas se tornaria uma adoradora se seu coração fosse ferido pela amorosa palavra de Cristo.

Contudo, a pergunta da Samaritana mostra um quê de religiosidade, onde e como adorar, sendo na realidade a pergunta correta, como e quem adorar. Essa pergunta muda o cenário e nos conduz ao cerne da adoração autêntica, o deleitar-se em Cristo.

Adoração é assunto do coração, logo, adoração emana de nossos afetos, por exemplo:

1.   Quando recebemos a noticia da morte de um ente querido não nos sentamos e pensamos: “Com que finalidade devo sentir essa tristeza?” Simplesmente choramos, porque a tristeza é um fim em si mesmo.

2.   Se você está em um bote inflável em alto mar há 3 dias sem comer e nem beber, e de repente você à vista uma ilha, você não diz: “Com que finalidade devo sentir desejo por essa terra?” Simplesmente você fará todo esforço do mundo para chegar lá. O anseio por terra, comida e água brota do mais profundo do seu coração.

3.   Se você está acampando em um local selvagem e perigoso, e um dia a noite surge uma raposa, você não vai dizer: “Com que propósito devo sentir medo”? O medo apenas surgirá.

Toda emoção genuína é um fim em si mesmo, e assim deve ser nossa adoração, um fim em si mesmo. Na adoração Deus é a voz temida que dá a noticia da morte do ente querido, Deus é a ilha avistada, na adoração Deus é a raposa na selva. Deus é o Ser que faz com que nossos afetos genuínos emanem de nosso coração e se voltem a ele.

“Nós não nos banqueteamos com a adoração como um meio para chegar a alguma outra coisa. Se o que transforma o ritual externo em adoração autêntica é o despertamento dos afetos do coração, então a verdadeira adoração não pode ser apresentada como um meio para alguma outra experiência. Os sentimentos não funcionam assim. Autênticos sentimentos do coração não podem ser fabricados como degraus para alguma outra coisa” (John Piper).

Isso é o que impede a adoração de ser “em vão”, afetos genuínos voltados ao objeto da nossa adoração, vimos o COMO, mas e o QUEM?

Deus é a trindade. Deus é o Pai, o filho e o Espirito Santo. Pensar em Deus sem pensar em Jesus leva a humanidade a criar de diversos de deuses. Para se pensar em QUEM como objeto da nossa adoração devemos pensar na trindade, e uma pergunta é crucial nessa reflexão: “O que Deus fazia antes da fundação do mundo”?

“…me amaste desde antes da fundação do mundo” (João 17.24). Deus antes da fundação do mundo, antes de criar todas as coisas e exercer sua soberania sobre ela era um Pai amoroso. Isso reconfigura nossa forma de compreender e ver o aspecto da adoração, nesse sentido afirma Michael Reeves: “O Espírito provoca o deleite do Pai no Filho e o deleite do Filho no Pai, inflamando-lhes o amor e unindo-os na comunhão do Espírito Santo”.

Atanásio, um dos pais da igreja, afirma: “Nossa definição de Deus deve-se basear no Filho que o revela. E, quando o fazemos, começando pelo Filho, descobrimos que a primeira coisa a ser dita sobre Deus é, de acordo com a declaração do credo: “Cremos em um Deus, o Pai”.

É de suma importância a compreensão trinitária no aspecto da adoração, não basta sabermos que somos adoradores, não basta termos em mente que somos imagem e semelhança de Deus, e nem saber que temos o sensos divinitatis, uma das coisas mais importantes e tão negligenciada nas igrejas é a doutrina da trindade, o Ser a quem adoramos.

Ainda no aspecto da adoração como assunto do coração, devemos compreender que a totalidade humana é razão e emoção e negar nossas emoções no ato de adorar é discretamente desmentir a Deus, afinal, ao criar homem e mulher ele disse: “É bom, muito bom”.

Imagine um marido perguntando à sua esposa se tem de beijá-la antes de ir dormir. Ela responderá: “Você tem, mas não por obrigação”. O que ela quer dizer é isto: “Se não for motivado por um afeto espontâneo por mim, suas propostas estarão despidas de qualquer valor moral.

Adoração NUNCA pode estar restrita meramente as ações externas. Se eu levo minha namorada para jantar fora no dia do nosso aniversário de namoro, e ela me pergunta: “Por que você está fazendo isso?” a resposta que mais a honra será esta: “Porque nada me deixaria mais feliz esta noite do que estar com você”.

“É minha obrigação” é uma desonra para ela.

“É meu prazer” é para ela uma honra.

É exatamente isso! O banquete do prazer cristão. Como devemos honrar a Deus na adoração? Dizendo: “É minha obrigação” ou “é meu prazer”?

Sim, adorar a Deus é buscar nele nosso prazer, não tem nada de errado busca em Deus nossa alegria e felicidade, ou um tipo de hedonismo do bem, nesse sentido CS LEWIS diz:

“Se hoje a noção de que é errado desejar a nossa felicidade e esperar ansiosamente gozá-la esconde-se na maioria das mentes, afirmo que ela surgiu em Kant ou nos estóicos, mas não na fé cristã. Na realidade, se considerarmos as promessas pouco modestas de galardão e a espantosa natureza das recompensas prometidas nos evangelhos, diríamos que nosso Senhor considera nossos desejos não demasiadamente grandes, mas demasiadamente pequenos. Somos criaturas divididas, correndo atrás de álcool, sexo e ambições, desprezando a alegria infinita que se nos oferece, como uma criança ignorante que prefere continuar fazendo bolinhos de areia numa favela, porque não consegue imaginar o que significa um convite para passar as férias na praia. Contentamo-nos com muito pouco”.

O que não podemos é justamente o oposto, buscar prazer e alegria em qualquer outra coisa senão Deus, fazer isso é cair em idolatria, e Deus não divide sua glória com ninguém.

Adoração e afetos estão ligados, contudo, se pararmos aqui podemos cometer grandes perigos, pois, da mesma forma que adoração e afetos caminham juntos, não existe adoração sem conhecimento, portanto, adoração é uma questão da mente também.

Nesse sentido gosto muito de uma frase do J.I.Packer:

“Todos os puritanos consideravam o sentimento religioso e as emoções piedosas, sem o conhecimento, algo pior que a inutilidade. Somente quando a verdade era experimentada é que a emoção era desejável a ele. Quando os homens sentiam a verdade e obedeciam a ela, isso resultava da atuação do Espírito de Deus, mas, quando os homens se deixavam arrastar por sentimentos sem conhecimento, então isso era um sinal firme de que o diabo estava trabalhando; pois sentimentos divorciados do conhecimento, quando os homens se sentem impelidos a agir em meio às trevas mentais, é algo tão ruinoso para a alma quanto o é o conhecimento desacompanhado da obediência”.

É o zelo por Deus sem conhecimento de quem ele é que produz o mais perigoso tipo de religiosidade. Lembre-se de Jesus dizendo a Saulo de Tarso: “Saulo, Saulo, por que me persegues?”. Não existe doxologia sem teologia, adorar sem conhecimento é zelo desprovido de temor.

“Eu te louvarei com o coração integro, quando houver aprendido tuas justas normas” (Salmos 119.7). O salmista nos mostra que a condição da adoração é o conhecimento das justas normas. Ainda nesse sentido a declaração de Savoy ensina:

“A luz da natureza mostra que existe um Deus, o qual é senhor e soberano sobre todas as coisas, é justo, bom e faz o bem a todos, e, por isso, deve-se temê-lo, amá-lo, louvá-lo, invoca-lo, confiar nele e servi-lo de todo o coração, de toda a alma e de toda a força. Mas o modo aceitável de adorar o Deus verdadeiro foi instituído por ele mesmo e, desse modo, está limitado por sua própria vontade revelada: que não seja adorado de acordo com a imaginação e os esquemas dos homens ou com qualquer representação visível instigada por Satanás, nem de outra maneira qualquer não prescrita nas Sagradas Escrituras”. (Declaração de Savoy, 22.1)

Ou seja, ao ponto que adorar envolve nossos afetos genuínos que brotam de um coração regenerado e purificado pela palavra, ela [adoração] também diz respeito a nossa mente, como já dizia o saudoso John Stott: “Crer é pensar”.

Qual foi o desfecho da mulher Samaritana? Alguns teólogos dizem que ela se tornou uma adoradora: “E muitos samaritanos daquela cidade creram nele, por causa da palavra da mulher, que testemunhava: Ele me disse tudo quanto tenho feito” (João 4.39).

Encerro nossa aula com uma linda demonstração de adoração nas palavras de Agostinho:

“A minha consciência, Senhor, não duvida, antes tem certeza de que Te amo. Feriste-me o coração com a Tua palavra e te amei. O céu, a terra e tudo o que neles existe, dizem-me por toda a parte que Te ame. Mas que amo eu, quando Te amo ? Não amo uma formosura corporal, nem uma glória passageira.  E, contudo, amo uma luz, uma voz, um perfume, um alimento, um abraço, quando amo meu Deus, luz, voz, perfume, alimento e abraço do homem interior, onde brilha para a minha alma uma luz que nenhum espaço contém, onde ressoa uma voz que o tempo não arrebata, onde se exala um perfume que o vento não esparge, onde se saboreia uma comida que a sofreguidão não diminui, onde se sente um contato que a saciedade não desfaz. Eis o que amo, quando amo meu Deus. Mas, o que significa isso? Disse a todos os seres que me rodeiam às portas da cerne: falai-me de meu Deus, se sois vós, dizei-me ao menos alguma coisa d’Ele. E elas exclamaram com alarido: “Foi Ele quem nos criou. Não somos nós o teu Deus. Busca-O acima de nós! Dirigi-me, então, a mim mesmo; a ti, minh’alma, que certamente és superior ao teu corpo, porque o vivificas. Mas também para ti, a vida da tua vida é o teu Deus. Que amo então quando amo o meu Deus ? Quem és tu que estás acima de minh’alma ? E onde habitas, ó Senhor ? Pois me lembro de Ti desde o dia que Te conheci, e lá Te encontro toda vez que me lembro de Ti. Tarde Te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde Te amei! Eis que habitavas dentro de mim, e eu lá fora a procurar-Te. Disforme, lançava-me sobre estas formosuras que criaste. Estavas comigo, e eu não estava contigo ! Chamaste-me com uma voz tão forte que rompeste a minha surdez. Brilhaste, cintilaste e logo afugentaste a minha cegueira. Exalaste perfume: respirei-o suspirando por Ti. Eu te saboreei, e agora tenho fome e sede de Ti. Tu me tocaste e ardi de desejo da Tua paz”.

Por: Andre Carolino. © Cante as Escrituras. Website: canteasescrituras.com.br. Todos os direitos reservados.  Revisão: Filipe Castelo Branco. Original: Adoração: O banquete do prazer Cristão.