Há alguns anos, visitei uma igreja no Distrito Federal. Acompanhei atentamente, como sempre faço, as canções entoadas no chamado período de louvor. Nenhuma surpresa. A mesma dieta magra de conteúdo bíblico que é servida em muitos cultos.

Logo após o culto, identifiquei alguns conhecidos que estavam conversando animadamente com uma senhora. Era uma visitante. Notei sua empolgação com as letras das canções que haviam sido executadas. Ela pediu as partituras, pois cantava num coral. Havia, no entanto, um detalhe. A emocionada visitante pertencia ao Centro Espírita da cidade.

A pergunta que martelou em minha mente: Por que ela não conseguiu distinguir a diferença entre a doutrina espírita e teologia expressa naquelas letras?

As canções apresentadas naquele culto celebravam um Deus tão genérico que uma seguidora do espiritismo pôde se sentir à vontade e fez intenção de leva-las consigo.

E isto, infelizmente, é o padrão em muitas de nossas igrejas. O período de cânticos se transformou num desfile de bobagens e generalizações. Os poderosos temas bíblicos fugiram da adoração hodierna.

Temas que elevaram a vida espiritual da igreja cristã através dos séculos dificilmente são ouvidos hoje em dia. Temas como, a ira de deus, o pecado do homem, a necessidade da salvação, o poder da cruz e do evangelho para salvar o pecador e outros mais; foram abandonados.

A sentença de John Payne[1] é relevante aqui:

De modo geral, o culto evangélico tem-se tornado radicalmente informal, presunçosamente inovador, e biblicamente empobrecido. A maior parte disso deve-se em grande medida ao abandono da liturgia centrada em Deus e regida pela Bíblia. O que tem sido descartado é a herança litúrgica protestante que, por séculos, levou com fidelidade os cristãos a adorarem a Deus de forma bíblica, além de nutrir sua fé em Cristo mediante os meios ordinários da Palavra e dos sacramentos[2].

Fiquei pensando, poderia nossa visitante entoar em seu coral o famoso hino: Em cegueira e vista? Aqui vertido conforme a letra do Cantor Cristão (hino 396):

Oh quão cego eu andei e perdido vaguei,
Longe longe do meu Salvador;
Mas da glória desceu e Seu sangue verteu,
Pra salvar um tão pobre pecador.

[Coro]

Foi na cruz foi na cruz onde um dia eu vi,
Meu pecado castigado em Jesus!
Foi ali pela fé que meus olhos abri,
E eu agora me alegro em Sua luz!

O hino apresenta doutrinas evangélicas basilares. Justificação pela Fé, encarnação, morte substitutiva de Cristo. Fala do pecado como preço que o ser humano não pode pagar. A função da lei como aio que conduz a Cristo. A cegueira do pecador em enxergar a salvação em Cristo é uma forte metáfora da inabilidade do homem natural em discernir as verdades espirituais.

O espiritismo, por sua vez, ensina que o homem, através de sucessivas reencarnações, pelos seus próprios esforços e pela prática das boas obras vai aprimorando-se a si mesmo, sem necessidade do sacrifício vicário de Jesus Cristo. Diz-nos Kardec, sobre a graça:

“… se fosse um dom de Deus, não daria merecimento a quem a possuísse. O espiritismo é mais explícito, porque ensina que quem a possui a adquiriu pelos próprios esforços em suas sucessivas existências, emancipando-se pouco a pouco das suas imperfeições.”[3]

A pergunta ainda continua martelando: Por que aquelas canções não expressaram o evangelho? Como puderam confundir a mensagem evangélica com a doutrina espírita? A resposta, creio eu, está na teologia que conduz a maioria das canções modernas: A Teologia da Glória.

Lutero chamou toda teologia baseada na especulação humana de “Teologia da Glória”. Essa Teologia da Glória “leva o homem a ficar perante Deus e propor uma barganha, baseada em suas conquistas éticas em cumprir a Lei”. Essa teologia pode gerar uma praga, o orgulho espiritual, algo que Deus odeia. A adoração ou a pregação que faz as pessoas sentirem-se bem consigo mesmas ou satisfeitas com suas próprias palavras e pensamentos arrogantes sobre Deus. Essa glória condena a alma do homem e o separa de Deus. No raciocínio de Lutero ele seguia uma lógica. Para ele, os teólogos da glória além de entender mal Deus e a salvação, não conseguiram ver as coisas pelas perspectivas da cruz, destorcem a realidade, avaliando tudo de maneira errada. [4]

Agora ficou mais claro. Podemos, enfim, encaixar melhor as coisas.

A Teologia da Glória alimenta os períodos de louvor, genéricos em seu conteúdo, por isso, podem agradar kardecistas, romanistas e membros de outras seitas.

Em contrapartida, a Teologia da cruz apontava o caminho para a igreja atordoada e os cristãos desorientados em um mundo pós-moderno. Trazendo decisões adequadas que podem liberar o poder da cruz em nossas igrejas. Precisamos colocar as perspectivas da cruz em tudo que pregamos. Se incentivarmos a necessidade de nosso povo por doutrina, a teologia da cruz se propagará.[5] Quando a cruz é levantada com orações de confissão, hinos e músicas de louvor, sermões encharcados de Cristo e outros elementos que olham para a vida com a perspectiva da grandeza que a cruz representa, acontece algo diferente com as pessoas.

Portanto, devemos nos preocupar com o conteúdo das canções entoadas em nossos cultos. As canções devem ser profundamente bíblicas e centralizadas em Deus, focalizando a Pessoa e a obra redentora de Jesus Cristo. Sem isso, corremos o risco de apresentar uma mensagem distorcida. Aquilo que Calvino denominou “invenção de formas errôneas de adoração”.

[1] PAYNE, John. No esplendor da santidade: Redescobrindo a beleza da adoração reformada para o século XXI. São Paulo: Os Puritanos, 2015.p. 14.
[2] Ou Ordenanças.
[3] KARDEC Allan, O Evangelho Segundo o Espiritismo, Introdução, IV, XVII.
[4] Shaw, Mark, Lições de Mestre, Mundo Cristão, 2004, p. 26
[5] Ibid, p. 27

Por: Isaias Lobão. © Cante as Escrituras. Website: canteasescrituras.com.br. Todos os direitos reservados. Revisão: Filipe Castelo Branco. Fonte: Mas, qual é mesmo a diferença?