A música “So Will I (100 Billion X)” da banda Hillsong United foi divulgada em junho passado no álbum Wonder e depois como single em janeiro deste ano. A música tem um som atraente e reverente (e agora quase trinta milhões de reproduções no Spotify). A música foi baseada no Salmo 19.1: “Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos”. E se os céus proclamam a glória dele, o refrão diz, “assim eu proclamarei…”.

A canção também se baseia em Lucas 19, quando os discípulos se regozijam e louvam a Deus pelo que veem em Jesus, e os fariseus instam com Jesus para repreendê-los. Jesus responde: “Asseguro-vos que, se eles se calarem, as próprias pedras clamarão” (Lucas 19.40). Neste espírito, a canção estimula os nossos louvores, para que nos unamos à criação.

Cada um dos três versos começa com “Deus de…” — primeiro da criação, depois da promessa, depois da salvação. Cada verso molda a sua própria versão do refrão, começando com “E enquanto você fala, cem bilhões de galáxias nascem… cem bilhões de criaturas respiram o ar que você dá… cem bilhões de fracassos desaparecem”. E se a criação continua entoando os louvores a Deus, nós também o faremos — 100 bilhões de vezes.

É fácil compreender por que tantos cristãos amam essa música.

Um espinho no segundo verso

Eu amo o primeiro verso. Deus criou o universo a partir do nada. Ele falou e houve luz — galáxias nasceram, planetas e estrelas se formaram — tudo para a sua glória. E “se a criação canta os seus louvores, eu também cantarei”. Como será acrescentado: “Tudo existe para o exaltar”. Amém.

O terceiro e último verso é ainda mais poderoso do que o primeiro. Assim como a criação revela Deus, a cruz também revela o seu coração amoroso. Nós “vemos [seu] coração / de oito bilhões de maneiras diferentes”. Poderíamos discutir se “criança” é um termo apropriado para se referir a todos os oito bilhões de seres humanos: “Cada ser precioso/Uma criança que você morreu para salvar”. Mas aqui a letra volta a se referir à criação ao mencionar os oito bilhões de seres humanos criados à imagem de Deus. Desejo afirmar que Jesus morreu por todos (1Jo 2.2; Jo 4.14; Ap 22.17), mas não por todos da mesma maneira (ele morreu por suas ovelhas, Jo 10.14–15; por seus amigos, Jo 15.13; por sua noiva, Ef 5.25).

Eu também faço uma pausa quando a música diz que Jesus “novamente [morreria por nós] cem bilhões de vezes”. É um sentimento admirável, mas parece ignorar o maravilhoso “de uma vez por todas” do sacrifício de Jesus (Rm 6.10; Hb 7.27; 9.12, 26; 10.10). Mesmo assim, consigo superar as minhas dúvidas em relação ao terceiro verso. É o segundo verso que cria o grande “Por que?”.

Por que essa palavra?

O problema no segundo verso resume-se a uma única palavra. Ironicamente, este verso começa com “Deus da promessa / Você não fala em vão / Nenhuma sílaba é vazia ou perdida”. Nós louvamos a Deus pelo seu cuidado com as palavras. Parece apropriado, então, que também tenhamos cuidado com as nossas.

O segundo verso menciona não apenas “natureza”, mas também “ciência”, e depois descreve as cem bilhões de criaturas de Deus como “evoluindo em direção ao que você disse”.

Toda natureza e ciência
Seguem o som da sua voz
E enquanto você fala
Cem bilhões de criaturas respiraram o ar que você dá
Evoluindo em direção ao que você disse
Se tudo isso revela a sua natureza, eu também revelarei.

É difícil ler “evoluindo” aqui, no contexto de natureza e de ciência, como algo diferente de uma afirmação do que poderíamos chamar de “evolução teísta” — que Deus governou e guiou o processo que a ciência moderna denominou “evolução”. Os autores apenas querem afirmar o que chamamos de “microevolução”, as adaptações geracionais observáveis ​​dentro das espécies, ao invés da teoria mais filosófica sobre as origens. Porém, afirmar a obra de Deus na microevolução realmente deveria ser mencionado e celebrado em uma canção de adoração?

Ou talvez tenha sido apenas uma escolha de palavra terrivelmente infeliz. A última linha do verso diz: “Se a criação ainda o obedece, eu também o obedecerei”. Sim, este é um modo bíblico de falar como o dos discípulos ao perguntarem, com reverência, a respeito de Jesus: “Quem é este que até o vento e o mar lhe obedecem?” (Mc 4.41). Talvez os autores realmente não quisessem dizer “evoluindo”, mas apenas esperavam comunicar que as cem bilhões de criaturas de Deus “obedecem”, ou são “lideradas”, ou são “guiadas” por aquilo que Deus diz. Essa é a melhor leitura possível que consigo imaginar, mas o problema permanece: “evoluindo” não significa “obedecendo”. “Evoluindo” não significa “ser guiado”. Essa expressão, “evoluindo”, é o que muitos de nós veriam como um compromisso insensato com a filosofia incrédula (mascarada de “ciência”), ou como sendo a escolha muito ruim de uma palavra.

Nos lábios da igreja?

Os autores muitas vezes erram na sua escolha de palavras, mas o que aumenta o interesse na canção “So Will I” é que seus autores a compuseram para a adoração e, em particular, para o culto congregacional. Uma coisa é errar em um artigo ou música para shows. Outra é errar em uma confissão de fé da igreja ou em um louvor composto para profissão pública.

Perguntei a um líder de louvor sobre “So Will I”. Ele quis dar à letra o máximo possível de benefício de dúvida: “‘Evoluindo’ pode ter muitos significados diferentes, mas de longe o seu uso mais reconhecido é em termos darwinianos… embora eu consiga entender como cristãos individuais poderiam aceitar esse termo no sentido de transformação ou crescimento espiritual, esse não seria o entendimento natural, considerando o contexto do verso”. Arte é uma coisa, mas louvor congregacional é outra. “Eu não colocaria essa canção nos lábios do nosso povo”, ele disse.

Uma coisa é cristãos discutirem se a “evolução teísta” é compatível ou não com as Escrituras; outra coisa é compor e vender uma “canção de adoração” que celebre a “evolução teísta”; e então outra completamente diferente é pastores e líderes de louvor projetarem essa canção numa tela e estimularem a igreja a cantá-la diante de Deus no contexto de uma reunião de adoração. Não importa qual tenha sido a intenção dos autores, não consigo ver como um número significativo de adoradores não será distraído e confundido por essa escolha de palavras — o que é decepcionante, já que é uma música boa, fora isso.

Para adoradores

Tendo citado as minhas preocupações, permita-me torna-las práticas para dois grupos de pessoas na igreja — para membros e líderes. Se eu estivesse visitando outra igreja para adorar com irmãos, e essa música fosse cantada durante o culto, eu não sairia. Eu cantaria com eles o máximo que pudesse.

Confesso com entusiasmo tudo no primeiro verso, e acho que posso oferecer significado bíblico às palavras do terceiro verso. Mas se eu mantivesse minha mente engajada na adoração, simplesmente teria que ficar quieto no momento da expressão “evoluindo”. Como um adorador em minha igreja, ou como um visitante em outra, eu quero ser rápido em unir-me à criação no louvor — “assim proclamarei!” — e lento para criticar. No contexto da adoração, quero ter um espírito alargado e generoso, não um espírito estreito e crítico.

E na adoração, Deus deseja que tenhamos as nossas mentes engajadas. Ele busca adoradores, diz Jesus, que o adorem em espírito e em verdade (Jo 4.23-24) — com o coração e a mente, com emoções e pensamentos. Deus requer que pensemos enquanto cantamos na adoração, não apenas proferindo palavras enquanto nossos pensamentos vagueiam em outro lugar.

Para líderes

Mas a questão é diferente para pastores e líderes de louvor que estão fazendo escolhas sobre quais confissões e letras incluirão no culto congregacional. Que mordomia santa é escolher as palavras que estarão nos lábios do nosso povo em adoração! Essa não é uma tarefa a ser realizada de ânimo leve. Que privilégio, alegria e responsabilidade.

Deus nos presenteou em nossos dias, pelo menos em inglês, com incontáveis ​​canções poderosas, com letras verdadeiras e melodias belas, de modo que não precisamos de canções como “So Will I” para comporem os nossos cultos. Temos cânticos e hinos, antigos e novos, que proclamam com clareza cristalina as verdades pelas quais nós, como igreja, morreríamos.

Amigos pastores, seu povo, se eles forem criteriosos, vão tropeçar na palavra “evoluindo”. Alguns nem sequer estarão prestando atenção, mas outros irão perguntar sobre isso após o culto ou via e-mails. Outros ainda ficarão distraídos e confusos. No culto congregacional, “So Will I” simplesmente não vale a pena ser cantada.

Por: David Mathis. © Desiring God Foundation. Website: desiringGod.org. Traduzido com permissão. Fonte: Not a Hillsong to Die On.

Original: Por que não cantar “So Will I”, da Hillsong, no culto. © Cante as Escrituras. Website: canteasescrituras.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Camila Rebeca Teixeira. Revisão: William Teixeira.